A SULAMENSE

—E entre os mais o meu amado
A que ha-de ser comparado?
Vês tu no bosque a maceira?
És assim d'essa maneira.
Por lograr os teus carinhos
E boa sombra ha já muito
Que eu andava a suspirar:
Com effeito sombra e fructo
Nada deixa a desejar.

Elle deu-me do melhor
Que tinha na sua adega;
Mostrando-me assim primeiro
Como faz quem tem amor.
Trazei-me flôres de cheiro,
Que estou como tonta e cega...
Algum pomo, que esmoreço...
Já um braço me elle passa
Pelos hombros e me abraça
Pela cinta... desfalleço...
Ah desfalleço d'amor!

SALOMÃO

—Pela corça e o veado,
Moças de Jerusalem!
Não a acordeis, cuidado!
Deixar dormir o meu bem,
Um somno bem socegado.

II

ENTREVISTA

A SULAMENSE

—Quem é que eu oiço bradando?
Oiço uma voz e por força
Que é a voz d'elle esta voz:
Ah! lá vem além saltando
Montes e valles, nem corça
Nem veado é mais veloz.

Eil-o detraz da parede
Além já da outra banda
E o que elle faz, como elle anda
A vêr no vallado todo
E na cancella se ha modo
De me pôr olho: ora vêde.

SALOMÃO

—Oh minha amada! depressa
Vem vêr o campo, anda, vem:
Mettida em casa, meu bem!
Que demora tua é essa?

Foi o inverno passando,
Até que a chuva acabou:
Veio a herva rebentando,
Revestiu a terra toda,
Chegou o tempo da poda,
Ouviu-se a rola arrulhando,
O figo vem já inchando
E a vinha está já em flôr:
Pelo que estás esperando?

Quando has-de tu, meu amor!
Andar então passeando?
Ouve lá que estamos sós,
E aqui não ha quem nos oiça:
Vês esta fresta? é um gosto
Até pela pedra ensossa
Vêr assomar o teu rosto,
Ouvir essa linda voz.