Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França com umas quantas estrophes, a Marseillaise?
Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra?
Portugal não deve a fama da sua gloria aos Lusiadas de Camões?
Consintam os homens de algarismos, os materialistas que antepõem a carne ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil; deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas depois de terem contemplado o dos céos.
Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada ao partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada infernal como a dos condemnados do Dante.
Não sei quantas vezes temos lido as Flores do Campo, exhaurindo sempre novos e exquisitos perfumes.
Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta. Costumamos dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor Hugo.
Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho original da poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é João de Deus em todos os seus escriptos.
Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites estrelladas de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua Fonte das Lagrimas, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno eden.
Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se quanto na patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida na fórma e ideia!