Começa o livro com a poesia Camões e Byron, e termina com o Cantico dos Canticos: abre pois com chave de prata para fechar com chave de ouro.

Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão peculiarmente despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando luxuosamente o adito d'este livro.

Citaremos, entre muitas, estas:

Maria! vêr-te á porta a fazer meia
Olhando para mim de vez em quando,
É o que n'esta vida me recreia.
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Esses olhos azues... que olhar! Receio
E desejo estar sempre a contemplal-o;
Não ha mais doce e mais custoso enleio.

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Bem poderas, Maria andar tapada
Só com o teu cabello, á similhança
Do sol em nuvem de manhã doirada.
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A bôca é tão vermelha que, em te rindo,
Lembra-me uma romã aberta ao meio,
Quando já de madura está caindo.

Na poesia Innocencia revela o poeta, a par de uma finura de sentimento e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de gratidão para quem a escreveu:

Casta innocencia, de Deus filha e bella
Entre as mais bellas! virginal aroma!
Rosa ineffavel, que se á luz assoma,
Haste e raiz apodreceu com ella!

Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos crentes, ainda tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias Luz da Fé, Fragmento, e varias outras.

Deus era inda meu pae. E em quanto pude
Li o seu nome em tudo quanto existe;
No campo em flor; na praia arida e triste,
No céo, no mar, na terra e... na virtude!

Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu credo, dil-o eloquentemente esta quadra:

Oh! poesia, poesia altissima
Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho
E beijo a tua base, harpa celeste!
O coração—a corda que nos deste.