Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e talvez um martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz em canticos suavissimos:

É do sangue e das mães que eu fallo, e certo,
Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida;
E as mães fontes de vida: eu nunca esperto
Esta lampada d'alma, suspendida
Na abobada eterna e que tão perto
Parece ter a origem..............
....................senão quando
Vejo essa cara imagem suspirando.

Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da rima deixando-a por vezes defeituosa.

A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol contém, mas que os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não obsta a que o sol seja o astro do dia.

«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e critico, a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.»

Eis-ahi está o segredo da culpa, e feliz culpa!

Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que esgravatam na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento.

A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como a natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder sujeitar-se aos acanhados moldes da arte.

Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro, n'estas dulcissimas estrophes:

Não ha existencia alguma
Que não tenha amor, nenhuma;
Porque o amor, é, em summa,
Essencia de todo o ser.
Ha sempre quem nos attraia,
Mil vezes que a onda caia,
Ha uma rocha, uma praia
Aonde a onda vae ter.