Logo, porém, que as invasões cessaram e uma paz relativa trouxe um pouco de socêgo ao velho mundo bouleversé, começou-se a notar que o recinto escolhido{35} não satisfazia as exigencias de sensibilidade que o Verbo nazarêno acordára em todas as almas.
Aquela grande sala nua, rectangular, monótona, de tecto horisontal e escassamente alumiada, em nada correspondia, ou antes, nada traduzia da aspiração ardente dos cristãos. Contra as pesadas traves de aquele tecto raso, baixo, opressivo, as azas brancas da oração esbarravam e, ensanguentadas, tombavam sôbre o lagêdo da nave, como pombas alvíssimas feridas.
A par desta objecção de ordem estetico-sentimental, outra, de naturêsa puramente material, mas não menos importante, havia a considerar: é que tal processo de construir oferecia inconvenientes serios, dos quais o menor certamente não era a cobertura dos templos, feita, em geral, com enormes pedras horisontais,{36} dificeis de obtêr, de trabalhar e de colocar. Para iludir este grave embaraço várias vezes se tentou substituir o granito por compridos pranchões de madeira. Mas a inovação fracassou, pois as inclemencias do tempo e os incendios muito frequentes em breve demonstraram a fragilidade do subterfúgio.
Foi então que o sistema das construcções abobadadas se apresentou ao espirito de não se sabe que obscuro arquitecto de génio, que, um dia, talvez em frente de uma arcada romana, as imaginou.
«Esta inovação acarretava uma série de modificações. Contrafortes exteriores, mas ainda pouco salientes, encostaram-se ás parêdes, exactamente nos pontos sobre os quais a abóbada fazia maior pressão. Pilares macissos, com columnas encravadas em cada uma das quatro faces, alternaram com columnas isoladas. Rasgaram-se{37} as janelas em cintro e, quando eram geminadas, uma claraboia as sobrepujava[5]».
Interiormente, a longa nave da basilica romana foi cortada, a dois terços do seu comprimento, por uma nave perpendicular, de menores dimensões, de sorte que o edificio ficou com a forma de uma cruz latina. Exteriormente, além das modificações já apontadas, outra se verifica, muito importante: o aparecimento do campanario ou campanarios, torreões macissos, aderentes ao corpo da igreja e servindo não só para instalar os sinos como tambem para vigiar os terrenos em volta, precaução naturalíssima n'aqueles tempos de guerrilhas quotidianas.
«Quanto á decoração, não se fêz caso algum da simetria romana. A forma e a ornamentação dos capiteis fôram{38} completamente abandonadas á fantasia dos esculptôres. Ha igrejas románicas em que não é possivel encontrar dois capiteis similhantes[6].
Reparem agora Vossas Excelencias nesta gravura. É um croquis da linda igreja de Poitiers, Nôtre-Dame-la-Grande, um dos mais belos monumentos religiosos da época que estamos analisando[7].
Frequente é encontrar nas historias de arte a afirmação de que esta arquitectura é triste, pesada, conventual, acompanhada da inevitavel explicação de que sómente á torturada, á sombria fisionomia{39} moral da Idade-Média se póde e deve atribuir a feição particular de similhante arte. É nesta altura que é de uso sacar dos tropos retumbantes, a que já tive ocasião de aludir nos umbrais de esta palestra, e dar cabo da pobre Idade-Média, carregando-a de nomes feios, mutilando-a ferinamente, enxovalhando-a e humilhando-a sem piedade.
Eu peço vénia para não juntar a minha debil voz ao côro dos apostrofadôres, sem que a minha renúncia, comtudo, signifique pretenção de afirmar que a êles não assiste o mais fugidio vislumbre de razão. Sim, a arquitectura románica, á primeira vista, é melancolica, soturna. Estas grandes paredes nuas e cegas, de uma espessura esmagadora, são rebarbativas, duras, quasi hostís. O interior da igreja tambem não nos dispõe melhor: a luz é coada por frestas{40} tuberculosas, abertas aqui e acolá, medrosamente, na mole compacta de granito. Sufoca-se lá dentro com tanta penumbra e tanta frialdade. Dir-se-hia que de aquelas pedras, de aquelas enormes pedras de castelo medievo, eternamente escorre um suor frio de terror.