Ah! que supremo Artista, que semi-deus d'Annunzio cantará a angustia dessa noite de epopeia!
Senhoras e Senhores, perdoai a quem, tendo-se proposto ocupar-vos do riso na Meia-Idade mais não fêz ainda que passar-vos ante os olhos quintos-actos de dramalhão histórico. É que, para a minha sensibilidade e para o meu espírito, esta profunda crise da velha civilisação{32} ocidental tem captivancias de côr, sorcelleries de mistério, de vida intensa e magnífica, que em nenhuma outra encontro e que nenhumas palavras sabem dar. Rasão por que...
Eu procurarei, no emtanto, absolvêr-me do venial pecado.
Ia dizendo que, ao aproximar do ano 1000, entre os cristãos se espalhara a crença de que o mundo ia acabar e que o terrôr do Fim exilára das bôcas pálidas o riso claro e sonóro de outras eras.
Breve, porém, se desfez o cauchemarêsco bruxedo. Ao clarear da primeira madrugada do século XI, o homem, que—como escreve certo historiador de arte[3]—se deitára para morrer, ergueu-se do seu catre, atónito e deslumbrado, e a cristandade toda respirou fundo, desopressa da lúgubre ameaça.{33}
Era o remoto milagre de Lázaro redivivo que em plena Meia-Idade se repetia.
Então foi pelo mundo adiante uma alegria desordenada, febril, quase dolorosa, como o casquinar das histéricas em face dum perigo que inesperadamente se desfaz. Libertas do cruciante pesadelo, as almas, reconhecidas, volveram-se para Deus, para esse Deus de misericordia e de piedade que conjurára a apocalíptica ameaça. E as bôcas, que ainda hontem soluçavam requiems de desespêro, abriram-se num te-Deum imenso, que iluminava a terra como um sol de gloria e para o céo subia como o perfume de um roseiral sem limites.
A estas rudes creaturas, porém, não bastava o platonismo da oração. O seu ingénuo e sincero reconhecimento anceiava por encontrar uma forma de exteriorisar-se mais duradoira e efectiva que a{34} das palavras, que logo morrem mal nascem.
E encontraram a igreja románica.
Durante muito tempo o deus dos cristãos não tivera santuário próprio. O credo galileu, mesmo depois de perfilhado pelo Imperio, era prégado em casa de pagãos. E quando os recem-convertidos, no zêlo da sua fé, pretenderam repudiar os templos, que a idolatria dos antepassados para sempre havia maculado, e em seus espíritos nasceu o desejo de erguêr á Divindade nova um altar novo, foi ainda á basílica dos romanos que êles fôram pedir o plano arquitectonico de que tanto careciam[4].