Terão razão, portanto, os que no templo do século XI se obstinam em encontrar a mais fiel traducção do espírito supersticioso, coalhado de angustias e pavores, que é para êles, o espírito do nosso antepassado feudal?

Todas as ideias, por mais absurdas, são defensaveis—e esta é-o mais que nenhuma. Todavia, parece-me que ainda aqui se toma um pouco a nuvem por Juno...

O ano 1000 passára e, com êle, um dos maiores pánicos da cristandade. Como é possivel que fossem tristes os homens{41} que ergueram tais edificios, se esses homens como que haviam renascido uma segunda vêz?

As próprias condições históricas da sociedade, que produziu a arte que estudamos neste momento, parecem auxiliar a minha conjectura. O mundo feudal ganhára uma certa estabilidade. As exacções e violencias dos barões eram menos frequentes, porque o aparecimento das cruzadas afastára da Europa um grande número de esses senhores brigões e aventureiros. O camponez principiava a respirar. O fructo do seu penosissimo labôr já lhe não era, como em tempos idos, insolentemente surripiado pelos vílicos do castelo. O direito era ainda a força, mas os costumes ganhavam cada vêz mais prestigio e o trabalho dos glossadôres começava a sêr encarado como uma tarefa util e necessária. Com{42} a paz veio um esboço de prosperidade e o oiro afluiu ao velho continente, arruinado e miseravel. O homem não era ainda feliz, decerto. Mas que diferença entre o passado próximo e aquele presente, escancarado para um futuro de que havia tudo a esperar e nada a temêr, por as almas e os corpos estarem ha muito couraçados para todas as miserias!

Examinai de perto, agora, uma igreja de esta época. Vereis quão facilmente se dissolve a vossa primeira impressão, ante as surprêsas que vos reserva um exame mediocremente atento!

Arsène Alexandre, o historiadôr amavel da caricatura, afirma algures que os constructores do templo medieval quizeram «aterrar por meio das grandes linhas, alegrar e distrair pelo detalhe.»[8]

Eu não saberia dizer-vos melhor nem{43} mais completamente a minha ideia.

Com efeito, a igreja románica é pesada, austera, no seu conjuncto arquitectural—jocosa e satírica, frequentes vezes, em sua decoração.

Como interpretar esta contradicção?

Creio que facilmente, desde que saibamos que aos frades da época se deve o plano da referida igreja. Os monges eram, ao tempo, os unicos homens cultos da Europa meridional, que foi aonde a arte románica nasceu e produziu os seus mais belos fructos. Refugiados nos mosteiros da montanha ou perdidos na solidão das florestas despovoadas, êles entregavam-se, nos intervalos dos oficios sacros, á piedosa tarefa de recolher os fragamentos da velha náu latina desmantelada, pondo, na lide ingrata, aquela amorosa e inabalavel tenacidade que mais tarde possuirá os tres precursores da{44} renascença medicénica: Dante, Petrarca e Bocácio. Que admira, pois, que, ao planearem a nova casa de Deus, êles se deixassem inconscientemente influenciar pela arte dos pagãos, cuja nobre simplicidade de algum modo era afim do austero evangelismo de então?