Uma força tenaz e obscura, porém, se opunha á realisação integral da concepção benedictina, erudita e grave: a imaginação popular. Mais puros de sugestões alheias, ignorando por completo a arte antiga e a teologia contemporánea, os pedreiros humildes, a quem a tarefa coubéra de erguer o templo, desforravam-se da contrainte monacal, dando largas á sua fantasia exuberante e um pouco desordenada, quando chamados a decorar os nichos, tímpanos, capiteis, portais.
Tudo quanto os interessava, todas as ideias que os preocupavam, uma diabrura{45} que os fizéra rir ou um vicio que pretendiam stigmatisar, tudo nessas pedras ficou modelado pelo cinzel ainda ingénuo e balbuciante, mas já irreverente e malicioso, dos mestres canteiros da época.
É certo que, por vezes, no meio de essas lavranterias do granito, uma cabeça monstruosa surge, relembrando antigos pavores. Simples capricho de esculptôr-contista, historiando o inferno á mingua de outro assumpto. O diabo era ainda temido, sem duvida, mas ao respeito de outrora começava a misturar-se não sei que vago halito de mordacidade jovial, que singularmente o apoucava...
Depois, por aquele principio que os psicólogos baptisaram de «lei do esquecimento activo»—o qual nos ensina que a memoria do homem tem repugnancia pelas recordações dolorosas e se esforça{46} por libertar-se de elas—, não me parece muito atrevida a afirmação que venho fazendo. Sobre aquelas almas primitivas a lembrança da recente agonia pairava ainda sinistramente. Que é, pois, de admirar que eles, libertos do perigo buscassem atordoar-se, por um natural instincto de reacção, entregando-se francamente a uma alegria, que não souberam exprimir?
E é, talvez, porque não souberam exprimir-se porque não tiveram a ajuda-los um tecnica perfeita, que, ainda hoje, muitos afirmam, iludidos pelas aparencias, que a esculptura decorativa da igreja románica, é na maioria dos casos, recatada, austera e cheia de melindrosos pudores—quando a verdade é que ela não passa de um riso que foi mal rido.{47}
Esta inconsciente revolta da imaginação espontánea e caprichosa dos artistas contra o dogmatismo árido de uma reduzida élite de eruditos foi lentamente preparando as almas e os olhos para o milagre ogival.
A Europa, mesmo durante as invasões, nunca deixára de estar em contacto com o Oriente. Com o advento das cruzadas as relações estreitam-se entre os dois continentes. Os bárbaros guerreiros, que do velho mundo abalavam á caça do infiel, voltavam de lá maravilhados com o explendôr de uma civilisação que não intendiam, mas que os perturbava como o perfume de uma flôr de estufa. E, nas desabridas noites de invernia, entre as paredes fuliginosas dos donjons, ouvindo crepitar os grossos tóros de carvalho na lareira, tudo{48} era arregalar os olhos deslumbrados para o rude homem de armas, que falava de êsses países longínquos como de um paraíso inegualavel, em que tudo fossem preciosíssimos brocados, joias scintilantes e palácios de mil côres, irreais como filigranas de cibórios!
Das altas salas do castelo a maravilhosa legenda descia até ao povo, trazida pela bôca de algum menestrel tagarela, que a recontava, prodigalisando tintas.
E sempre no auditorio havia um artista que a escutava, embebido, e se ficava sonhando, mesmo depois da historia concluída e a multidão dispersa...
Por uma gradual evolução, que não vem a pêlo detalhar, o gótico, filho espúrio do románico, aparta-se de êste{49} e, ahi por fins do século XII, adquire fóros de arquitectura original. O plenocintro, acanhado, frio, incómodo como uma grilheta, cede o logar á ogiva esbeltissima, que se ergue para o céo com a mesma graça alada de duas mãos que resam e o mesmo indefinido anceio de liberdade que faz estremecer de entusiasmo as lanças compridas das comunas, luctando pela sua independencia politico-económica.