A insurreição lavra por toda a parte e em todos os campos. Já de ha muito o homem se rebelára contra a secura doutrinal dos teólogos, que prégavam o horrôr pela carne e só das almas curavam, minando-as de terror e desesperança[9]. «O cristão Abeillard nega o{50} pecado original, reabilita a dignidade dos sentidos e procura estabelecer, pelo estudo imparcial da filosofia antiga e da doutrina dos Padres, a unidade do espirito humano, desde a antiguidade até á Idade-Media. Quatro anos depois da sua morte, Arnaldo de Brescia, seu discipulo, proclama a republica em Roma[10]».
Entre a creatura e o Creadôr de novo se intromete a vida natural, terrena, humaníssima, que, em vez de ser um contacto de infamia e damnação, se torna no mais comovido meio de comunicar com Deus.
Certa manhan de chuva torrencial, Joaquim de Flora, numa qualquer humilde capela de aldeia, prégava sobre o pecado. Súbito, a borrasca serena e um raio de sol penetra alegremente na igreja,{51} vestindo de oiro os ombros vergados dos ouvintes. Comovido, o bom do frade cala-se um instante e fica a olhar, extasiadamente, a nesga de luz... Mas logo recobra os sentidos e, entoando o Veni-Creator, sái com a multidão para o campo, a saudar o grande sol amigo[11]! Cem anos mais tarde, á hora da sua morte, o maravilhoso pobresinho de Assis havia de renegar o ascetismo, pedindo perdão ao irmão corpo de o haver maltratado tanto. E, com o derradeiro suspiro, dos seus lábios exangues voariam para o céo os versos imortais do «Cantico ao Sol»:
Laudato sia, Dio mio signore,
con tutte le tue creature![12]{52}
A insurreição contra os moldes asfixiantes do Passado invade todos os campos, desperta em todos os corações o anceio do libertamento. Interpretes inconscientes do sonho comum, os trovadôres levam, de terra em terra, com o embalo das liricas de amôr e o vinho acre e forte das canções de gesta, o seu reportorio sempre aclamado de fabliaux{53} mordazes e sirventes implacaveis[13].
Por toda a parte um ritmo surdo, mas grandioso e indomavel, anima a vida colectiva, conjugando energias dispersas, elaborando o sônho de deslumbramento que nas catedrais góticas se perpetuará. Muito fraco ainda para derrubar o barão feudal, o vilão procura neutralisar um poderio que o insurge, vinculando-se fortemente á comuna, isto é, á confraria dos seus pares. Assim{54} fortalecido o seu esforço individual pela coordenação de mil esforços, sedentos de liberdade, êle poderá orgulhosamente solicitar do senhor os forais que o deixarão trabalhar em paz e erguêr, mesmo em face do castelo da senhoria, o seu beffroi, tão rendilhado e opulento como um templo ogival.
Para estas almas, cachoantes de revolta, um podêr ha, comtudo, que lhes não pésa, nem excita ódios: o poder de Deus. É tambem o único que aceitam sem murmúrio—mais, é o único que amam. E amam-no com um ardor tanto maior quanto mais funda é a miseria em que se debatem. Porque, para elas, amar a Deus é ainda de algum modo robustecer a febre de insurreição que as abrasa, pois é tomar contacto com um além radioso em que não ha cavaleiros arrogantes nem servos espesinhados,{55} abençoado mundo em que todos são iguais e se não odeiam, jardim de maravilha eternamente florido por onde nunca passaram fomes, nem pestes, nem guerras incruentas.
Então as almas voltam-se para a casa de Deus na terra, para a igreja acolhedora e apasiguadora, na anciosa esperança de ahi vivêrem mais plenamente o sonho de universal fraternidade que as devora.
Em breve a estreita nave románica se torna insuficiente para contêr a multidão, que ao assalto da felicidade confiada e alegremente avança.
A maré sobe, engrossa, faz pressão contra as muralhas do velho templo, cujas pedras vão cedêr ante a irresistivel força de expansão da vaga rumorosa e formidavel. E quando, por fim, as broncas paredes desabam e sôbre a terra alastra o entusiasmo novo, das águas vivas da inundação emerge, feminina, irreal, levíssima, a catedral{56} nova, como um lirio de milagre abrindo ao sol as suas pétalas de mármore!