Johannes Joergenson, o nobilissimo poeta dinamarquês, cuja recente conversão ao catolicismo fez de êle o mais enternecido dos historiadores de S. Francisco de Assis, conta, no seu «Le Livre de la Route», o seguinte delicado episódio.
Um dia, certo anonimo pesquisador de belas coisas, encontrando-se de passagem em não me recorda que medievesco burgo do Norte, lembrou-se de visitar-lhe a catedral—notavel reliquia de arte gótica, ao que parece.
Depois de a havêr miudamente esquadrinhado, quiz rematar o seu exame por uma ascenção ao mais elevado ponto da flecha, tão afusada e alta que os maiores edificios da cidade pareciam de joelhos aos{57} pés de ela. Ora sucedeu que, ao chegar lá acima, áquela imensa altura, o nosso curioso visitante inesperadamente esbarrou com um velho canteiro de longas barbas de prata, que, de cinzel e de martelo em punho, minuciosamente abria, num pedaço de granito desornado, um sem-número de minusculas flôres e outros motivos frageis...
Um instante interdicto, o turista acabou por interpelal-o, com um sorriso de piedosa ironia:
—Eh! meu amigo, esse trabalho bem inutil me parece! Pois para que servirão tantos cuidados, se, lá de baixo, ninguem, absolutamente ninguem, poderá vêr e admirar a sua obra?!
Então, o pedreiro, volvendo para o indiscreto uns olhos plácidos e ingenuos, retorquiu brevemente:
—E que não vejam?! Deus vê—é{58} quanto basta.
E, de novo, o cinzel cantou sôbre o granito frio...
Á medida que o meu estudo mais intimamente me relaciona com a Meia-Idade, mais no meu espírito se radica a impressão de que pela bôca dêste velho obscuro lucidamente falam alguns séculos de Historia—quiçá os mais intensos, senão os mais belos, de quantos o homem até ao presente viveu.
«Deus vê!»