Pois não é verdade que nesta frase rápida, de uma singelêsa e de uma precisão de legenda latina, nêstes dois monosilabos breves, que facilmente cabem num hálito de creança, toda a Idade-Média se resume e como se justifica amplamente?

«Deus vê!»

Sim, Deus vê. E porque Deus vê,{59} e para que Deus veja, é que os homens esventram montanhas e lhes roubam os mármores sem preço, vão ao fundo da terra cavar os finos metais e as pedras rutilantes, jogam a vida sôbre os mares traiçoeiros em demanda dos brocados e sêdas nunca vistas—e de todos êsses tesoiros confusamente amontoados arrancam, por fim, a mais audaciosa e deslumbrante maravilha do humano engenho: o templo gótico!

Sim, é porque Deus vê que os Van Eyck põem todo o seu génio enorme no retábulo de Gand e Memling toda a sua indizivel candura nas telas do Hospital de Bruges; é porque Deus vê que Jehan Pucele, Pol de Limbourg, Jehan Fouquet e outros gastam uma vida inteira iluminando insonhaveis, preciosissimos missais, livros de Horas e psalterios; é porque Deus vê que Fra{60} Angelico, o divino, ergue as mãos em résa antes de começar o seu labôr e nunca altera o que pintou, «porque foi Ele quem guiou o seu pincel»; é porque Deus vê que um formigueiro de arquitectos e maçãos levanta as catedrais de Amiens, Reims, Paris, Chartres, Bruxelas, Lincoln, Colonia, Strasburgo, e pintores as decoram, e esculptores as vestem de milhares de estátuas[14], e marceneiros as enriquecem com madeiras prodigiosamente lavradas, e vitralistas-poetas, perdulários de sonho e de emoção, lhes encastoam nas esguias ventanas ogivadas todos os milagres da Legenda Sanctorum feitos linha e côres inimitaveis. E é ainda porque Deus vê que a quasi totalidade dos artistas dêsses{61} fecundos e gloriosos séculos de crença, de esperança, de legitimas revoltas, deixa por assignar as obras que das mãos palpitantes lhes saem! Para quê assignal-as?! Assoldadados embora, êles trabalham com elevado ardôr, menos para agradar ao principe que os remunera, que ao Senhor que os vê. Os homens poderão esquecer-lhes os serviços e até os nomes; Deus é que sempre os recordará, pois por amôr de Ele labutaram.

A arquitectura religiosa da Baixa Meia-Idade é a creação suprema dêstes anónimos Homeros. Todos êles, possuidos de uma fé igual, trazem à obra comum o melhor do seu esforço: os artistas a sua arte, os sábios a sua sciencia, os rudes o seu braço e até os mendigos o seu óbolo. «Graças a êstes admiraveis trabalhadores, a catedral é um sêr vivo, uma árvore gigantesca{62} cheia de aves e flores. Mais parece uma obra da natureza que dos homens... A igreja é a casa de todos, a arte traduz o pensamento de todos... A catedral pode substituir não importa que livros. Só a França soube fazer da catedral uma imagem do mundo, um resumo da história, um espelho da vida moral[15]».

Nunca o preceito d'anunziano: «crear com alegria» foi tão escrupulosamente observado como nêste periodo. De aquelas pedras, amorosamente acasteladas até ao céo, num tão vertiginoso impeto que chega a causar arripios, irradia uma tal satisfação, um tal contentamento, que eu não sei de alma bronca que, em frente de elas, não entreadivinhe, um instante, as delicias da Terra Prometida!

Do sombrio templo románico já nada{63} ou pouca resta. O hieratismo e o convencionalismo decorativos do anterior periodo cedem o passo ao franco naturalismo do periodo que começa. Os grandes panos de muralha cega e quasi nua vestem-se, de alto a baixo, de prodigiosos lavores e surgem-nos agora tão recortados de altissimas janelas, enormes rosáceas e frestas sem conto que a gente chega a ter a impressão de que a catedral está suspensa no ar!

Deixai o grande Taine dizer que o interior do edificio é lúgubre e frio[16] e escutai-o antes quando ele vos descrever, na sua prosa sumptuosissima, tão luminosa e forte como um alabastro da Acropole, as catedrais de Assis e de Milão.[17]

Não, meus senhores, a arte ogival não odiou a luz, antes a fêz a sua mais{64} assidua colaboradôra e até por amôr de ela se perdeu. «A arquitectura gótica repudiou a obscuridade... Quando a catedral é obscura é porque o mestre de obras calculou mal o seu esforço, quiz obrigal-a a dar mais do que ela podia, ou pretendeu acumular nos seus flancos multidões sôbre multidões, como em Paris, aonde as quatro naves laterais aparecem esmagadas por galerias inúmeras. Se vestem as largas aberturas de vitrais, não é para entenebrecer a nave, mas para glorificar a luz...... ....... O vitral oferecia a sua matriz inflamada aos dias pálidos do Norte, para que o afago de êstes fosse mais quente á pedra que de todos os lados subia. Os seus azues liquidos, os seus azues carregados, os seus amarelos de açafrão e de oiro, os seus alaranjados, os seus vermelhos vinosos ou púrpureos,{65} os seus verdes densos, arrastavam ao longo da nave o sangue de Cristo e a safira celeste, o rubro das folhas de vinha que o outono crestou, a esmeralda dos longinquos oceanos e dos prados de em redor. Em verdade êle apenas atenuava as suas rutilantes policromias no fundo das capelas absidiais, aonde a mancha dos cirios fazia tremular a noite. Era um pretexto para acumular á roda do santuario a imprecisão angustiosa e a volúpia do misterio. Mas desde que o céo se descobre, a grande nave estremece de alegria e o cántico triunfal da luz espalha-se por toda ela em grandes lençois de oiro[18]».

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