Eu termino.

«Lunga fu la gioniata» como diz o Poeta—longa e fastidiosa, ai de vós, ai de mim! Pilôto inhabil, atarantadamente guiei os vossos passos atravéz de regiões cuja extranha beleza a minha palavra dura e a minha sciencia minguada vos não souberam salientar. Adivinho os vossos reproches e curvo, em silencio, a pecadôra cabêça...

Mas se, para não agravar as muitas culpas de que me acuso, vos poupo miudas justificações, outrotanto não posso fazer com respeito a certa falta, que absolutamente careço de explicar.

Prometi eu falar-vos do riso na Meia-Idade e, afinal, apenas vos contei—e quão pobremente o fiz!—da clara alegria{67} medieval.

Certo, o riso e alegria são irmãos. Ás vezes, porém, tão arredados andam um do outro, que mais se diriam extranhos que gerados no mesmo ventre. Nas máscaras dos que nos rodeiam quantos risos sem timbre! quanta alegria tambem que desconhece o esgar hilariante! É que os primeiros, à similhança de certas bizarras plantas que não carecem da terra para viver, podem florir sem ter raizes na alma. Mas a segunda é o próprio humus que palpita sob o profundo beijo de Anteu, a própria alma exaltada e transfigurada. Joana de Arc, sagrando Carlos VII após a sua marcha heroica e miraculosa sôbre Reims, não sorriu; mas o seu coração batia as azas, festivamente, como uma pomba em maio... Sôbre o glorioso Monte Alverne, na manhan dos Stigmas, o{68} divino filho de Bernardone não sorriu tambem; mas os seus olhos brilhavam, como se toda a luz do sol lhe cantasse dentro do peito.

Foi de uma alegria assim que eu vos falei, de uma prodigiosa alegria que, durante séculos, fêz bater mais depressa o coração de um mundo adolescente—e não do riso que os homens dessas eras tão espontanea e clamorosamente riram. Porque, atravéz de todas as miserias, de todas as vexações, de todos os dramas, essas ásperas creaturas souberam rir o mais puro e claro riso que a velha Europa viu rir depois que os herois de Homero se calaram. Simplesmente—e com isto penso absolver-me da voluntária culpa—êsse belo riso não é para aqui, para um auditorio que tantas e tão gentilíssimas senhoras aformoseiam.{69}

As catedrais medievas são verdadeiros museus de inconveniencias lavradas em granito. Nenhum acto, por mais intimo, da vida de cada um se exime a figurar nelas com um realismo só familiar aos compendios de fisiologia[19].

De uma velha inglesa solteirona sei eu que, em frente de um capitel em que duas nudezes se enroscavam mais vivamente, ia rebentando de apoplexia. E, comtudo, lá na pensão belga em que a conheci, rosnava-se com bonhomia que Vesta talvez não fizesse boa cara às oferendas desta encortiçada pucela...

De facto, a chalaça dos nossos avós frequentemente descamba no escabroso. E as suas melhores boutades ainda são aquelas que só podemos contar aos amigos em noites de tertulia ruidosa ou, pelo telefone... às madamas curiosas.{70}

Ingenuos, simples, duma franqueza de crianças terriveis, amando rir e nunca perdoando a quem os arreliava, os maçãos obscuros que conceberam e realizaram a suprema obra de arte da Meia Idade jámais souberam calar o que lhes ia nas almas, quer se tratasse dum sonho, quer duma farçada.