Um companheiro fôra surpreendido numa atitude grotesca? Dias depois uma gárgula travêssa, suspensa no ar, faria rir toda a colonia de pedreiros e os fieis que entravam para a missa. Um juiz prevaricára, deixára-se subornar? O artista imortalisar-lhe-hia a façanha, pintando-o com orelhas de burro, pernas de pato e compridas garras de ave de prêsa.

A ninguem perdoavam, nem aos senhores que tudo podiam sôbre os corpos, nem aos clerigos, que tudo podiam{71} sôbre as almas.

Mas, eu nunca mais terminaria se começasse a desfiar o rosário de anecdotas que as velhas catedrais sabem de cór!...

Para V. Ex.as fazerem uma ideia mais precisa desta crua franqueza, passo a ler um fragmento de uma carta que Bocacio escreve a Mainardo de Cavalcanti, apreciando o «Décameron» e censurando este seu amigo por haver deixado ler tal livro às mulheres do seu entourage:

«Eu nunca poderei louvar-te por haveres deixado que as mulheres que te rodeiam lessem os meus carapetões. Rogo-te, por isso, que nunca mais consintas semelhante coisa. Bem sabes quanto desafôro e ofensas á decencia, quantas excitações aos amores impudicos, quantas passagens capazes de arrastar{72} à prática de más acções os corações mais experimentados nesse livro se encontram. Se as mulheres honradas, em cujas frontes brilha ainda o santo pudôr, se não deixam induzir ao adultério, tal leitura, no entanto, pode tornar as suas almas impudicas e vicial-as pela tara obscena da concupiscencia. No caso em que a honra destas mulheres não baste para te conter, então pensa na minha, pois aqueles que me lerem hãode imaginar que eu não passo de um desprezivel alcoviteiro e de um velho debochado, divulgador das patifarias de outrem»[20].

Que artista de hoje subscreveria tão desassombrado libelo contra a própria obra?

E já que evoquei a interessante figura do pitoresco filho de Certaldo, não{73} a deixarei sem contar-vos uma anecdota que vos dirá, melhor que todos os meus comentários, como os nossos avós se desforravam dos remoques das donas que se burlavam de amorios.

Bocácio, já velho, tendo encontrado no seu caminho uma formosissima viuva florentina, apaixonou-se violentamente por ela. A dama, astuciosa e galhofeira, fingiu não desdenhar as homenagens do poeta, que, entusiasmado, lhe mandou cartas sôbre cartas, todas palpitantes dum amor vulcanico. A certa altura, a ironica deusa, sentindo a necessidade de pôr um dique forte áquela tumultuosa verbosidade e desejando imenso folgar de gôrra com as amigas, reuniu todas as cartas e publicou-as. O escandalo foi enorme em Florença. Então, para vingar os seus ultrajados brios de Lovelace serodio, o nosso{74} amoroso escreveu uma tremenda verrina contra as mulheres, a que pôs o nome de Corbaccio ou O Labirinto do Amor, por nela se tratar das angustias dum namorado perdido na floresta do Amor e que dela é tirado por um Espirito tutelar. O namorado, bem de ver, é o próprio Boccacio e o Espirito a sombra do marido morto, que vem do inferno à terra para desencantar o mísero transviado, a quem revela, complacentemente, toda a miseria fisica e moral do conjuge ironista.

Oiçamos a fala rancorosa:

«Quem a visse, como eu a via todas as manhans, com o seu barrete enfiado na cabeça, o manto de noite sôbre os ombros, ir acocorar-se à beira do fogão, e lhe tivesse contemplado os olhos ramelentos, encovados e baços, tossindo e cuspinhando sempre,{75} teria esquecido cem mil amores».