E por este diapasão afina o resto da tirada! Num dado momento abandona o seu caso particular e generalisa:
«As mulheres apenas se ocupam de parecerem belas e serem admiradas. Nenhuma ha que seja ajuizada e capaz de agir criteriosamente. Todas elas são inconstantes, levianas, frívolas, querem e não querem uma coisa ao mesmo tempo, excepto se ela se relaciona com os seus desregrados apetites..... Fingem-se medrosas e tímidas; se estão num logar elevado, queixam-se de vertigens; se é necessário entrar num barco, aqui-del-rei que o seu delicado estomago não o suporta; se se trata de caminhar de noite, receiam encontrar espiritos, duendes e até mesmo ratos; se o vento sacode uma janela ou da{76} parede se despega uma pedrinha, todas se cobrem de suores frios.
Deus sabe, no entanto, como elas são atrevidas, quando se trata do que lhes apraz! Não há rudeza de logar, precipicios de montanha, altura de palacio, obscuridade de noite, que sejam capazes de as deter!»[21]
Não se agastem Vossas Excelencias, Minhas Senhoras, com as desamaveis reflexões do poeta, nem comigo tampouco, que apenas as reproduzo pelo saboroso pitoresco que encontro nelas. Tais desabridos queixumes, no fim de contas, só em favor da mulher redundam. De ela tudo se tem dito desde que o mundo é mundo—todo o bem e todo o mal. As mulheres fazem-me lembrar as obras de arte, que só são inteiramente más quando ninguem fala{77} de elas. E a verdade, a grande verdade é que as mulheres são obras de arte de que nós, homens, constantemente e regaladamente nos ocupamos.
Mas se, para merecer o vosso perdão, isto não basta ainda, recordar-vos-hei que, enquanto Bocácio dava largas à sua misogenia de despeitado, o seu amigo Petrarca continuava a exalçar Laura e na memória de todos os corações persistia a saudade amorosissima da mulher de excepção que o Dante imortalisou!
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Com a Renascença o grande riso puro, vibrante, terra-a-terra, desaparece de todos os labios para dar logar à casquinada erudita e petulante do «humanismo».{78} Os humoristas da transição—Ariosto, Rabelais, o nosso mestre Gil e, mais tarde, Molière, Cervantes, o pintor Brueghel-o-Velho e até o próprio Brantôme—são a gargalhada suprema, embora um pouco dolorosa, dum mundo na agonia.
Oh! o De profundis inegualavel!
De então para cá a alegria torna-se uma palavra quasi sem sentido, vocábulo inerte que os dicionarios.—que são museus de palavras—guardam sómente para satisfação de arqueologos amadores de inutilidades. No dia em que o homem descobriu o sorriso e a ironia, da sua boca desertou para sempre o grande riso de outrora.
Hoje, esbofado por cinco duros seculos de marchas forçadas para a Civilisação, nem mesmo esse sorriso e essa ironia lhe restam! Quando tenta rir, os{79} musculos do facies resistem ao desejo, cavando-lhe mais fundo a sua tisica grimace de neurastenico arqui-civilisado; e, se procura ironisar, as palavras saem-lhe pela garganta com um rangido seco, gritante, agudissimo, de porta com gonzos pêrros.{80}