Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D. Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.
Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de desenganos e de crueis penas do triste passado.
Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas, que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em Cintra aos 28 de agosto de 1481.
Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos tempos da vida do pae governava de facto o reino.
N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto lavasse as mãos no sangue dos assassinos.
A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.
Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.
N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia, alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.
Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de Bragança.[25]
Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.