Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos, sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.

Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.


D. Leonor d’Austria

D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge, mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.

Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de Toledo.

É esta a unica mancha do reinado de D. João II.

Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel, continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu illustre predecessôr lhe permettiam tomar.

Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano venturoso. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois pela voracidade do ganho; mas foi grande pela sua politica de ferro, pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia com que soube tratar a visinha Hespanha.