Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois paizes.

Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D. Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.

Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no pundonor.

A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II, foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis annos do seu reinado.

De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.

Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei subjugou o oceano e avassallou o Oriente.

Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de Adão...

João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia; outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro e pela fortaleza do seu cerebro de politico.

Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares, mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel, é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens, deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.