Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos foi um campo d’aleivosias.[31]
Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte, costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.
Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia, um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D. João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os servidores leaes.
De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa: D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D. Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal, bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal, arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina, esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança o direito de successão por morte do cardeal rei.
Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de 1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.
Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella. Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve, como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.
Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna a louca e de Filippe I de Castella.
Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de 1518).
No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D. Manuel.
Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.