Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.

A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia. Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.

Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em breve.

Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de fevereiro de 1558.[36]

Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.


D. Catharina d’Austria

Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D. João.

Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador Carlos V.