Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho, casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel.
D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o Livro das Horas do Espirito Santo, os Psalmos certos para os finados, o Livro da Montaria e attribue-se-lhe tambem a Côrte Imperial; seus filhos, el-rei D. Duarte o auctor do Leal Conselheiro e da Arte de bem cavalgar em toda a sella; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das Horas de Confissão e do Livro da virtuosa Bemfeitoria, seguiram-lhe as honradas tradições.
N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede, Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa Universidade, transferida de vez para Coimbra.
As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão (1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade de podermos estabelecer uma colonia em Macau.
Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das especiarias.
A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional. Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385.
Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do Mar Tenebroso, cujos segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D. Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes da familia real.
Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz.
Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu nascer.
Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras, poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito; que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que adquiriram a Bemaventurança eterna.