D. Brites era bisneta do duque D. Affonso, o protogonista d’Alfarrobeira; e D. Jorge, bisneto de D. Pedro, a pobre victima immolada ás ambições do irmão!... A grande arvore bragantina começava a dominar com suas raizes, não só o proprio throno que depois foi seu; mas tambem a familia e o sangue generoso do unico homem que ousára impedir os seus vôos quando se alargavam para além dos limites da equidade e da justiça.

Affonso d’Albuquerque

Nasceu este grande homem, em 1453, na Quinta do Paraiso, entre Alhandra e Villa Franca. Educou-se na côrte de D. Affonso V, que em 1480 o mandou na esquadra contra os turcos, em soccorro do Rei de Napoles. Em 1489, D. João II, de quem era estribeiro-mór, encarregou-o de defender a fortaleza de Graciosa, junto a Larache. Em 1503 foi a primeira vez á India, a bordo da nau S. Thiago, soffrendo grandes tormentas durante a viagem. A 25 de janeiro de 1504 sahiu de Cananor, chegando a Lisboa, nos fins de julho do mesmo anno. El-Rei D. Manuel, sciente do seu alto merito encarregou-o em 1506 de tomar Ormuz; seguiu Albuquerque na armada de Tristão da Cunha, levando comsigo a nomeação de successor a D. Francisco d’Almeida.

Grande espirito, possuidor de um talento do mais fino quilate, diplomata e guerreiro, soube levantar o nome portuguez nas remotas paragens, onde a vontade regia o tinha collocado. Comprehendeu o genio oriental, tratando de o domar não só pela força das armas, mas tambem pelas exterioridades do fausto; assim em Goa tratava-se como principe, habitando o palacio do Sabayo e comendo ao som de musicas, acompanhado pelos fidalgos e por córos de bailadeiras, vestidas com luxo asiatico, que no terreiro dançavam, durante as refeições.

Para nada lhe faltar na grandeza, teve a sorte commum dos maiores vultos de toda a humanidade: a perseguição cruel dos invejosos, dos pobres miseraveis que julgam poder desfazer o que a Providencia creou! Albuquerque foi calumniado e perseguido, destinguindo-se n’este infame empenho Diogo Mendes de Vasconcellos e Lopo Soares d’Albergaria, que D. Manuel, na mesma occasião de demittir o heroe, nomeava o primeiro capitão de Cochim e o segundo governador da India. Albuquerque soube isto ao entrar a barra de Goa, vindo de Ormuz, a bordo da Flor do Mar. Estava doente e os padecimentos agravaram-se-lhe com a ingrata nova.

Não queremos nós descrever a sua morte, trasladando para aqui o que d’ella refere o seu proprio filho, nos Commentarios:

«Affonso d’Albuquerque como soube que era chegado outro governador, e seus inimigos muito favorecidos d’el-rei, alevantou as mãos e deu graças a Nosso Senhor e disse:

«—Mal com os homens por amor d’ElRei e mal com ElRei por amor dos homens, bom é acabar.

«Dito isto, mandou tomar aos mouros todas as cartas que levavam para os mercadores d’Ormuz, em que se dizia, que se não tinham dado a fortaleza a Affonso d’Albuquerque, que lh’a não dessem, porque era vindo outro governador, que faria tudo o que elles quizessem.