«E porque estas novas não dessem torvação á fortaleza que se ficava acabando, mandou-as Affonso d’Albuquerque queimar todas, e despediu os mouros que se fossem e ficou só com o secretario. E tendo já feito seu testamento, em que se mandava enterrar na sua capella, que tinha feito em Goa, que elle ganhára aos mouros, fez uma cédula, em que mandou que os seus ossos, depois da carne gastada, se trouxessem a Portugal e outras palavras que houve por escusado escrever. E acabado isto escreveu uma carta para D. Manuel, que dizia assim:

«—Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza estou com um soluço que é signal de morte. N’esses Reinos tenho um filho: peço a Vossa Alteza que m’o faça grande, como meus serviços merecem, que lhe tenho feito com minha serviçal condição; porque a elle mando sobre pena de minha benção, que vol-os requeira. E quanto ás cousas da India não digo nada, porque ella fallará por si e por mim.»

«E n’este tempo estava já tão fraco, que se nem podia ter em pé, pedindo sempre a Nosso Senhor que o levasse a Goa e alli fizesse d’elle o que fosse mais seu serviço. E sendo tres ou quatro leguas da barra, mandou que lhe fossem chamar Fr. Domingos, vigario geral, e mestre Affonso, physico. E porque, com grande fraqueza que tinha, não comia nada, mandou que lhe trouxessem um pouco de vinho vermelho, do que viera aquelle anno de Portugal. Partido o bergantim para Goa, foi a nau surgir na barra, sabbado de noute, quinze dias do mez de dezembro. Quando disseram a Affonso d’Albuquerque que estava alli, alevantou as mãos e deu muitas graças a Nosso Senhor de lhe fazer aquella mercê, que elle tanto desejava. E esteve assim toda aquella noite (com o vigario geral, que era já vindo de terra, e Pero Dalpoem, secretario da India, que elle deixou por seu testamento) abraçado com o crucifixo; e fallando sempre disse ao vigario geral que era seu confessor:—que lhe rezasse a paixão de Nosso Senhor, feita por S. João, de que fora sempre muito devoto, porque n’ella e n’aquella Cruz, que era similhante da em que Nosso Senhor padecera, e nas suas Chagas levava toda a esperança da sua salvação. E mandou que lhe vestissem o habito de S. Thiago (de que era commendador) para morrer n’elle; e ao domingo, uma hora antes da manhã, deu a alma a Deus. E alli acabaram todos os seus trabalhos, sem vêr nenhuma satisfação d’elles.»

Esta simples descripção encantou-nos desde a meninice; por essa circumstancia demos a palavra ao chronista dos feitos do grande portuguez. Foi elle o seu filho, Braz de Albuquerque, a quem D. Manuel, querendo recompensar os feitos do heroe, ordenou que lhe tomasse o nome.

Baseado nos documentos que seu pae enviava a El-Rei de Portugal, Affonso d’Albuquerque escreveu os Commentarios, obra chamada pelo Dr. Antonio Ferreira, uma nua e chã pintura. Hoje ignora-se a certa paragem dos restos do primeiro vulto da nossa epopeia ultramarina. Este facto demonstra o vandalismo brutal dos frades do convento da Graça, em Lisboa, onde o corpo estava depositado, na capella-mór da igreja, em sepultura particular. Como alguem invejava o local e deu mais avultada quantia, os frades intentaram uma demanda com os herdeiros d’Albuquerque, sobre a posse do tumulo. A estupidez (este é o termo) das justiças do seculo XVII validaram a pretenção dos Gracianos e os ossos de Affonso d’Albuquerque foram trasladados para o carneiro do Capitulo, não se sabendo se em caixão documentado, ou confundidos á solta com as numerosas ossadas ahi depositadas. Bom é que se estude este assumpto e que se procurem os restos mortaes d’um dos maiores homens não só de Portugal, mas tambem de todo o mundo civilisado.

A Affonso d’Albuquerque succedeu, como dissemos, Lopo Soares d’Albergaria, que tomou a hombros o aniquilar toda a grandiosa obra do seu antecessor. Era antipathico, orgulhoso e cruel. Os povos de Goa, emquanto o corpo d’Albuquerque esteve na capella de Nossa Senhora da Serra, vinham junto d’elle offerecer-lhe donativos e supplicar-lhe protecção para as aleivosias dos portuguezes.

A Infanta D. Maria

Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de 1521, sendo filha d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa D. Leonor d’Austria. Tinha apenas dois annos quando sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio de 1523) para junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e desamparada, entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna Blasfet, camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo dos cuidados maternaes, até que D. João III veiu a desposar a princeza D. Catharina, irmã de sua madrasta. A nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual como ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas lettras, sciencias e artes.

Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia onde se juntavam os artistas e litteratos, attrahidos não só pelo culto scientifico mas tambem pela belleza imponente e pela figura magestosa da Augusta Senhora que sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de mulher com o tracto affavel para com todos, com a protecção e a estima ao abandonado da fortuna, que tivesse talento como apanagio da Divindade. Viveu a infanta no auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas (Anna e Luiza), Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de Gil Vicente), Joanna Vaz, e tantas outras que seguiram a derrota sublime do genio portuguez.

Depois de ter sido requestada por varios principes da Europa; casamentos estes que a politica e a avareza de seu irmão D. João III lhe veiu a tolher, falleceu a Infanta D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos antes da morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte soneto: