PRIMEIRA ORIGEM DA ARTE DE IMPRIMIR.

Primeira Prova Destes Novos Characteres.

De muitas cousas grandes, que se admiraõ no Mundo, se naõ sabe o principio; assim succedeo à Patria de Homero, ao nascimento do rio Nilo; e assim acontece tambem à origem da Arte de imprimir; se naõ he que os progressos das mesmas Artes muitas vezes saõ os mayores impedimentos para se saberem com certeza os seus nascimentos, por[~q] com a experiencia, e o uso dos artifices se costumaõ augmentar de forte, [~q] naõ parecem as mesmas, e como insensivelmente crescem, naõ he facil determinarlhe, nem o lugar em [~q] se inventaraõ, nem as primeiras pessoas [~q] as acharaõ, por[~q] a diversidade dos lugares, e multiplicidade dos Authores, [~q] as aperfeiçoaraõ, fazem provaveis as muitas opinioens, que naõ sem fundamento se seguem, e que por ambiçaõ de gloria se arrogaõ as Cidades, e naçoens, [~q] se costumaõ jactar de terem produzido homens em qualquer profissaõ insignes; para o que naõ concorre menos a emulaçaõ taõ poderosa, quando he louvavel para exercitar as mais laboriosas, e engenhosas producçoens, e taõ efficaz quando he viciosa, para promover os effeitos mais escandalosos do odio. Alguns querem fazer nesta Arte a differença, [~q] costuma haver nas producçoens da natureza, affirmando [~q] foy muy diverso o tempo, em [~q] se concebeo, daquelle em que sahio a luz, e diversas tambem as pessoas, [~q] concorreraõ para [~q] se conseguisse o fim pertendido. Os Hollandezes, como Boxornio affirma no seu Theatro de Holanda, attribuem a Lourenço Coster, guarda do Palacio Real da Cidade de Harlem, a invençaõ desta admiravel Arte; o que pertendem provar com huma inscripçaõ, [~q] ainda presentemente se lê na porta da Casa, em [~q] o mesmo Lourenço Coster assistio, na qual se anticipa muito o nascimento da Impressaõ à opiniaõ cõmua, declarando-se, que ella se inventara no anno de 1440. havendo a contradiçaõ de se ler na Estatua do mesmo Lourenço Coster, que elle fora outro Cadmo, e o primeiro inventor deste utilissimo Artefacto no anno 1430. o [~q] ainda se faz tanto mais incrivel, quanto mais se afasta esta opiniaõ do anno em que se vê [~q] foraõ impressos os primeiros Livros, que appareceraõ no Mundo.

Servese este Author tambem do [~q] escreveo Adriaõ Junio, Medico, e Historiador de Hollanda, [~q] no seu Livro, [~q] intitulou de Batavia, diz [~q] assistindo Lourenço Coster em huma Casa de Campo, e passeando por hum Bosque, lhe lembrara fazer huns characteres de pao de Faia com os quaes imprimira alguns Versos em papelaõ; e assim este Author, como o primeiro em que fallei, seguraõ existirem varios Livros, [~q] nomeaõ para mostrarem [~q] Lourenço Coster seu Nacional fora quem inventara a Arte de imprimir taõ anticipadamente, como ambos affirmaõ; e para corroborarem mais a sua opiniaõ, dizem [~q] o mesmo Lourenço Coster vendo, que lhe succedera bem na primeira prova dos characteres de pao, os fizera de chumbo, ou de estanho, e para o ajudar chamara a Joaõ Fauste, ou Fust. Porèm Malinchrot na sua Arte Typographica he de parecer, [~q] as primeiras folhas de alg[~u] dos Livros, [~q] os Hollandezes allegaõ para mostrar que os imprimira Lourenço Coster, se lhe ajuntaraõ depois, e por este, e outros principios mais solidos segue, que a invençaõ da Arte de imprimir pertence aos naturaes de Moguncia, e naõ aos de Harlem, como entendem todos os que fazem o melhor, e mais certo juizo sobre esta materia, julgando [~q] este invento se deve a Joaõ Guttemberg natural de Strasbourg, a quem ajudara muito Joaõ Fauste, ou Fust no anno 1440. ou [~q] pelo contrario, o inventor fora Joaõ Fust; e [~q] Joaõ Guttemberg, e Pedro Schofer seu genro, [~q] depois foy do mesmo Fust, contribuira sómente com a despeza necessaria para se pôr em pratica este projecto; e a isso se accrescenta, que dos primeiros Livros, que se imprimiraõ, foy hum intitulado: Speculum Salutis, que os de Harlem pertendem [~q] já de antes estivesse impresso em vulgar por Lourenço Coster; porèm o [~q] Berthio diz no 3^{ro} Livro da descripçaõ de Alemanha, fallando de Moguncia, póde tirar toda a duvida, [~q] se mover nesta questaõ, ficando satisfeitos os sequazes de huma, e outra opiniaõ; por[~q] diz elle, [~q] neste Livro Speculum Salutis, como em outros muitos das primeiras ediçoens da Officina de Lourenço Coster, observara, que cada pagina fora impressa sobre numa forma, ou taboa, em [~q] se esculpiraõ as letras como abertas ao buril, e naõ com characteres separados; do que se póde julgar, que Lourenço Coster achou em Harlem a invençaõ de imprimir com esta forma, ou taboa, do modo de que dizem usaõ os Chinas; e [~q] Guttemberg, Fauste, e Schofer foraõ os [~q] inventaraõ em Moguncia os characteres moveis, e separados huns dos outros, para se poderem compor as syllabas, as palavras, e as paginas, como presentemente se pratica; mas a mais cõmua opiniaõ he a [~q] seguem Tritemio na sua Chronica, Polidoro Virgilio, Bruschio no Catalogo dos Bispos de Moguncia, Salmuth sobre Pancirolo Sabellico nas suas Eneadas, e Wemphelingo, que escreveo em 1511. os quaes affirmaõ, [~q] Joaõ Guttemberg natural de Strasbourg fora o primeiro, que nesta Cidade inventara a Arte de imprimir; e que passando a Moguncia, ahi a concluira felizmente. Esta he a opiniaõ, que commummente se segue como mais verdadeira, com que concorda Ferrario na descripçaõ da Cidade de Moguncia, com outros que Naude cita na addiçaõ à Historia de Luiz XI. os quaes affirmaõ, que Joaõ Guttemberg, Cavalhero Alemaõ, natural da Cidade de Strasbourg, procurando, ainda [~q] sem fruto, pôr esta Arte na ultima perfeiçaõ na mesma Cidade de Strasbourg, se achara obrigado a hir para Moguncia, aonde passou o resto da sua vida, alcançando o Privilegio de natural della, o que foy cauza de muitos Authores lhe chamarem Moguntino, como tambem na Inscripçaõ seguinte.

JOANNI GUTTEMBERGENSI
MOGUNTINO,
Qui Primus omnium Litteras
AEre imprimendas invenit
Hac Arte de Orbe toto benemerenti
YVO Vintigensis
Hoc Saxum pro Monumento posuit.

Guttemberg naõ podendo fazer os gastos, e despezas necessarias para se pôr em pratica esta Arte, (porque a mayor parte dos primeiros Livros se imprimiraõ em pergaminho para poderem passar por Manuscritos, e por isto custavaõ muy caros) se vio obrigado a fazer sociedade com Joaõ Fust, ou Fauste, acima nomeados, ajudado de seu genro Pedro Schoffer, ou Opilio de Gernshain, [~q] se tem pelo primeiro inventor dos Punçoens e Matrizes, aos quaes cõmunicou o seu projecto, com que ultimamente se publicaraõ tantos effeitos desta Arte, como o explicou Arnaldo Bergellano nestes Versos.

Addidit huic operi lucem sumptumque laboris
Faustus Germamus, munera fausta ferens.
Et levi ligno sculpunt & grammata prima,
Quae poterat variis quisque referre modis.
Materiam bibulae supponunt indè papyri
Aptam, quam libris littore Nilus alit.
Insuper aptabant mitti quas sepia guttas
Reddebat pressas sculpta tabella notas.
Sed qui non poterat propria de classe character
Tolli, nec variis usibus aptus erat,
Illi succurrit Petrus cognomine Schoffer,
Quo vix caelando promptior alter erat.
Ille sagax animi praeclare toreumata finxit,
Quae sanxit matris nomine posteritas.
Et primus vocum fundebat in aere figuras,
Innumeris cogi quae potuere modis.

E mais adiante fallando nesta mesma sociedade neste distico:

Illo primus erat tunc Guttembergus in albo,
Alter erat Faustus, tertius Opilio.

Principiaraõ estes Inventores a imprimir os primeiros Livros no anno de 1450. como se acha escrito no Livro intitulado Trithemianarum Historiarum Breviarium: isto mesmo confirma Erasmo no prologo de hum Tito Livio, impresso em 2 Volumes no anno de 1519 em Moguncia, por Joaõ Schoffer, filho de Pedro Schoffer, e Neto de Joaõ Fust, no fim do qual se lê tambem hum Privilegio do Emperador Maximiliano, dado ao mesmo Joaõ Schoffer em consideraçaõ de seu avou Joaõ Faust ter inventado a Arte de imprimir.