A Biblia, que estes mesmos primeiros inventores imprimiraõ, era tam semelhante às manuscritas, que levando Joaõ Faust muitos Exemplares a Pariz, de que a mayor parte eraõ de pergaminho, ornados com grandes Letras, e Vinhetas de ouro feitas de maõ, como ainda muitos existem, os vendeo por Escritos de maõ por hum preço muy consideravel; porèm advertindo os [~q] os tinhaõ comprado, que os Exemplares eraõ muitos, o accusaraõ pelo crime de feitiçaria; e isto obrigou a Joaõ Fauste a retirarse para Moguncia; e naõ se achando ainda seguro, passou a Strasbourg, aonde assistio alg[~u] tempo, e alli ensinou esta Arte a Joaõ Metelin, ou Mentel, que foy o primeiro, que a exercitou em Strasbourg.

Depois publicou por hum Edital o Parlamento de Pariz, que declarava livre de culpa a Joaõ Faust, reconhecendo a grande utilidade da admiravel Arte de imprimir.

Tendo estes engenhosos Artifices impresso estas Biblias, e alguns mais Livros, se deviaõ separar, ou morrer, porque se naõ achaõ outros com os seus nomes; e assim se principiou a divulgar este invento pelos criados, e Officiaes destes primeiros Impressores.

Joaõ de la Caille na sua Historia da Impressaõ, de quem tirey a mayor parte destas noticias, diz que Roma fora a primeira Cidade aonde se principiou a exercitar esta Arte no anno de 1467. sendo Pontifice Paulo II, e que o primeiro Livro, [~q] ahi imprimiraõ Conrado Suvenhein, e Arnoldo Parmarts, fora a Cidade de Deos de Santo Agostinho, e que por isto se ficara chamando a letra em que esta Obra foy impressa, com o mesmo nome do Santo; porèm eu entendo, que Joaõ de la Caille se engana, se he certo o que pessoas dignas de mayor credito me affirmaraõ, dizendome que na Livraria de huma das primeiras Casas deste Reyno se acha hum Livro impresso em Lisboa sem data, porèm em lugar della, se lê nelle, que fora impresso 8 annos depois de se inventar a Arte da Imprimissaõ; (saõ palavras do mesmo Livro) e como o mesmo de la Caille assenta, que os primeiros Livros se principiaraõ a imprimir no anno 1450. sendo certa a noticia da nossa primeira ediçaõ, tambem fica sem duvida, que já em Lisboa havia Impressaõ no anno 1458. que saõ nove annos antes que esta Arte se exercitasse em Roma, como diz o mesmo de la Caille; mas sobre esta materia espero tratar mais com extençaõ em outra Obra a [~q] mais propriamente pertence. Foy tal o progresso, [~q] em breve tempo fez esta utilissima Arte, que dentro do mesmo seculo de 400. se introduzio o seu uso nas Cidades mais principaes de Europa, e os que a exercitaraõ, tiveraõ tanta estimaçaõ, que mereceraõ occupar muitos lugares, e Officios pela sua capacidade, a qual parece que adquiriraõ pelo mesmo emprego em que se occupavaõ, tirando do seu trabalho o melhor lucro no estudo [~q] faziaõ, e pelas noticias com [~q] se instruiaõ. Sirva a todos de exemplo o celebre Aldo Manuntio, que floreceo no mesmo seculo de 400. e a quem devem os Professores da Lingua Latina a mayor luz para penetrarem os mysterios mais escuros, e o methodo mais efficaz de se aproveitarem das riquezas deste Thesouro da erudiçaõ. Os louvores desta Arte naõ cabem nem ainda em tantos volumes, quantos por ella se tem publicado, porque todas quantas ediçoens se fizerem pelos seculos futuros, todas seraõ novas provas da sua utilidade, porque ninguem negarà, que se a Arte de escrever he a mais necessaria para o cõmercio dos homens de Negocio, e para o mais trato civil, a Arte de imprimir he a mais precisa para os homens de letras, e para todas as Artes, e Sciencias, que tambem ajudaõ ao negocio, e à conservaçaõ do genero humano, com a differença, [~q] a Arte de escrever suppre ordinariamente a falta da presença dos que vivem, e a Arte de imprimir resuscita os que já naõ existem, conservando lhes o nome, e a fama, que he huma vida mais perduravel. Devem pois entre os Artifices, que concorrem para este fim, ser mais estimados, naõ só os que fundem os characteres, mas os que formaõ aquelles instrumentos donde elles nascem, e muito mais os que executaõ huma, e outra cousa; de sorte que naõ só enriquecem as officinas da Impressaõ com as letras mais bem formadas, mas lhes deixaõ as fontes inexgotaveis dos Punçoens, Matrizes, e Moldes, de que por muitos seculos se poderáõ valer para se refazerem de toda a especie de characteres, que lhes forem necessarios. Aos Soberanos pertence mais que a ninguem exaltar, e favorecer a Arte de imprimir, porque nesta Officina se forja a trombeta da sua Fama; e o metal [~q] se emprega neste exercicio, naõ he menos conducente para permanecer a sua gloria, que o das Estatuas, em que tanto se ostenta a dos Heroes, a quem se dedicaõ semelhantes incentivos da memoria, ficando esta mais diffusa, e nobremente eternizada pelas relaçoens das façanhas, escritas, e impressas pelo character das virtudes referidas, e pela eloquencia dos Historiadores, e Panegyristas, do que pela semelhança da figura representada, ou pela estatura do corpo figurada, que mais serve para lembrar a pessoa, do que para persuadir o merecimento. Assim espera Joaõ de Villeneuve ter a mayor fortuna, [~q] he merecer o agrado de Vossa Magestade por esta prova, [~q] offerece dos characteres [~q] formou, e fundio para o serviço da Impressaõ da Academia Real da Historia Portugueza.

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O Director, e Censores da Academia Real da Historia Portugueza mandaõ imprimir esta prova dos primeiros characteres, que fez Joaõ de Villeneuve para uso da Impressaõ da mesma Academia. Lisboa Occidental, 18 de Janeiro de 1732.

O Conde da Ericeira.
O Marquez de Alegrete.
Joseph da Cunha Brochado.
O Marquez de Abrantes.
O P. D. Manoel Caetano de Sousa.
O Marquez Manoel Telles da Sylva.

End of Project Gutenberg's Primeira origem da arte, by João Villeneuve