A cerração é densa. O pobre hiate
Sem leme desarvóra na refrega;
Penetra na escotilha a onda céga,
Alquebra-se o baixel no duro embate.

A trovoada estala, a prôa abate;
No escaler a maruja ao ceu se apéga,
Este a vida infeliz surdo lhe nega,
Que as lagrimas não bastam p'ra resgate!…

Um cão hirsuto, magro, avermelhado,
Com os olhos chorosos, flamejantes,
Que brilham como negros diamantes

Late com desespero, busca a nado,
Mergulha entre os cadaveres boiantes,
O dono encontra, e morre extenuado.

*No harem*

No matiz do tapete auri-felpudo
Haydé reclina as fórmas langorosas,
Scismam d'inveja purpurina as rosas
Admirando-lhe as faces de velludo.

Modelo, que convida a obsceno estudo
N'um desmaio entre gazes vaporosas
P'las cassoulas de prata sumptuosas
O ambar, o beijoim arde a miudo.

Quando rompe nos ceus a madrugada
Sentem-se beijos em lascivo espasmo
Que illuminam a alcôva perfumada

E um eunucho—decrepito sarcasmo!—
Que a barbacã vigia na esplanada,
Crê-se na terra um mero pleonasmo.

*Esculptura*