Comtudo, será o escritor sem defeitos? Não, até porque, como é logar-comum dizer, os tiveram Milton, Dante e Camões. Por vêses, ha na sua prosa poetica raptos que se esquecem demais de quem os póde ver. Fógem demasiadamente do espirito dos mediocres, o que contradiz involuntariamente, mas de facto, todo o seu generoso e completo amor aos humildes. Neste ponto ha bastante da pecha principal de Melchior de Vogue: aristocracia involuntaria dentro da elevação ardente duma Arte que só pretende, afinal, fecundar a alma do Povo, porque até, não sendo assim, seria descabida.

D'aí, algumas obscuridades no estilo, raras, muito raras, dignas de emenda, porém, e ainda o uso aqui e ali de epitetos eruditos, mas gastos, crispados de sonoridade emfatica.

Ás vezes, um mal grave—a como que convição de que mais escreve para si proprio do que para o seu tempo e para a sua geração.

E porisso, apezar de frequentemente cristalino, limpido, adoravel de verdade, de sentimento de vida, nestes poêmas em prosa destôam a espaços requintes preciosos, só acessiveis alguns aos espiritos altos e muito cultos. Este defeito não aféta demais a obra no valor intrinseco: priva-a de ser frutifera em toda a sua intensidade, o que é sempre deploravel num meio como o nosso, assim inculto, esteril, carecido de verdadeiras obras.

A filosofia de Jaime de Magalhães Lima reclamaria trabalhos de muito graduada perfeição plastica, a começarem quase sem estilo, como quem palestra com crianças e simples. Só assim este povo, tão atrazado e desorientado, mas tão inteligente e bom, poderia, pouco a pouco, perlibar o mel precioso, colher todo o dôce impulso da verdade livre, compreendendo e vivendo o que a má fé certa de invejosos ou de sètarios aponta com facilidade como arte egoista ou impenetravel, se não como devaneio lunático.

Já como romancista, o seu intento de dar o verdadeiro realismo lhe inspira uma arte superior na comunicabilidade, uma fórma sempre transparente e, comtudo, original.

Os seus romances, depois dos de Julio Dinís e alguns de Camilo, são os mais perfeitamente portuguêses da nossa literatura de ha 60 ânos. Não são muito lidos. Nem por isso deixam de ser modelares.

Jaime de Magalhães Lima entendeu, como poucos, o romance moderno, sem as taras do excessivo romantismo, ou do excessivo realismo, inversão positiva do primeiro.

Espiritualista corajoso, muito superior, não desprezou a unica lei duravel talvês da estetica positivista: «A Arte deriva do sentimento e idealisa a realidade».

A rigor, não poderia êle dizer como Lessing: «Se Deus tivesse a verdade na sua mão direita e na esquerda o amor sempre inquieto da verdade, e me dissesse:—Escolhe!—eu, ainda que me condenasse a enganar-me eternamente, optaria pela esquerda. Pai—dir-lhe-ia eu—a verdade é só para ti». Não. Jaime de Magalhães Lima não tem a febre da verdade, porque a encontrou plenamente, e disso está convencido. Outra febre sagrada o empolga: é a de ensinar a verdade que professa, ensiná-la na doutrina e no exemplo.