Como poeta, não escolhe o verso: maneja com fulgor e nitidez uma prosa opulenta e, ao mesmo tempo, substancial. A sua poesia é a sua fé no maior amor de todos. Combativa? Sempre, mas porque é inabalavelmente tolerante. A combatividade raivosa denuncia ou doença da alma ou enfermidade pessima do caráter. Jaime de Magalhães Lima tem a saude perfeita e tranquila no corpo e na conciencia.

Quais os seus poêmas? Abramos um: Apostolos da Terra. É um rosario de melodias doces e profundas á Natureza. Em cada melodia a emergencia duma verdade, por vêses tão heroica que é a confissão duma culpa, só insignificante aos olhos dos nulos. Mas isto numa enorme e solida ciencia, como numa erudição rara. Isto, com um estilo original e sincero, vernáculo e vivo, como o atestam as seguintes rápidas amostras.

Na Sede de Brancura: «Tem sêde de brancura a nossa alma, de brancura que corra como o sangue e seja casta como a madrugada.

A neve, o diamante, aguas e nuvens são brancas, mas debalde lhes pedimos que palpitem e ministrem comunhão na translucida essencia do seu brilho.

Desliga-as do bater dos corações uma calma frieza sem piedade, como se fôssem estranhas ao seu ritmo, ou passassem de longe, ignorando a constante agitação d'amor que os faz pulsar».

Na Irmã do Mar: «Misterio!... É bem salgado o mar e a seara é dôce. Encerra o trigo a esperança de crescer, o latejar do sangue e do calor que alimenta a beleza a mais gracil e a conciencia austera e redentora na profunda expressão do seu poder. É corrosivo o mar e, destruindo, nem ás pedras perdôa, desunindo a liga cristalina que se fês na pureza sublimada d'altos fógos. E vivem ambos, a seára e o mar, na eterna agitação do seu anceio!... Quem sabe?! Talvês sôfram ou se exaltem no delirio do mesmo amor, sagrado por destino de quem sem êrro guia os sóes e o mundo no triunfo divino da Harmonia».

E o mesmo alto ideal, puro sentimento, e por vêses estudo de árduos problemas, nos outros poêmas em prosa, Via Redentora e Vozes do meu Lar. No primeiro dêstes, e tambem para exemplo do estilo do notavel escritor, bastam estes periodos do belo canto que é A Enxada:

«O cavador ergueu-a novamente. Rompe o sol; sobre os carvalhos loirejou fulgores; dissipa a treva na montanha; beija certamente a lamina polida; e a enxada, em sagrada ancia de triunfo, inunda o arvorêdo e a seára de clarões de estrêla. Batisou-a o fogo no rubor da forja, e deu-lhe a pureza, diamantina voz, para entoar os cantos da luz celeste».

Não ha aqui tanta espiritualidade moderna e sã como no melhor trabalho de Eduardo Schuré?

Não é aquêle estilo simples, limpido, espontaneo e, ao mesmo tempo, magnifico de eufonia e graça?