Como literato, afês-se a ver a critica pelos canones suaves de Montesquieu, mais tarde ampliados por Guyau e, entretanto, a sua alma lavada avistava, e logo palpava, sem tortura, por livre intuição do fundo da sua Arte, as verdades de Amiel quanto ao ideal e ao real, quanto ao cèticismo, pai seguro da tirania, por mais que êle prégue a liberdade. Encontrou tão luminosos limites á teoria da superioridade da áção sobre o sonho do referido Guyau, valetudinario antes dos 30 ânos, e morto aos 34, todo impelido sempre mentalmente pelo espirito de Fouillée, como ensanchas generosas para a delicadeza de Constant Martha, esse homem estranho que chegou a provar a religiosidade do poeta Lucrecio e do proprio Epicuro.

Nesta liberdade sã viu Jesus-Cristo no libertarismo genial de Tolstoi. Compreendeu que, assim como a arte da Grecia é um alento na mais larga vida da civilização cristã, assim a arte devida ao cristianismo palpita na sociedade futura, trazendo já a vitoria do espiritualismo nas lucubrações livremente experimentais da Ciencia.

Entretanto, o seu refugio não lhe fês esquecer a Terra, meio indestrutivel das manifestações da sua alma, e amou-a, e cantou-a, e não lhe negou um culto sadio e amoravel.

Mas tudo isto não rogando favores do publico, nem os da bolsa nem os da fama.

Resignando-se com a relativa impopularidade duma obra profunda, independente de faciosismos, livre de conveniencias estreitas. Não procurando o plumitivo hiperbólico, o correligionario maleavel, o agitador apoteótico, o reclâmo do amigo, a furia do inimigo, o escandalo do indiferente, nada do que atrái atenções, do que provoca discussões, do que escalda temperamentos.

Tudo isto como um regato no ruido dos passos, embora como um grande rio no poder de corrente. Tudo isto duma maneira silenciosa, ainda que penetrante, como os bons arômas.

E, nisto, vindo as cãs, e com elas a pureza maior, a elevação da filosofia esoterica, a radiosidade da arte, a paz perfeita do coração, a santidade e maior verdade da palavra, não veio a popularidade.

Não admira. Ilogico seria o contrario. Tolstoi precisou de escandalizar a Europa, embora involuntariamente, para se reconhecer como era um genio moral e mental. Jaime de Magalhães Lima, avisado pelo exemplo do Mestre do Caucaso, não póde ser precipitado na justiça pelo escandalo involuntario sequer. A sua modestia, verdadeira a ponto de ser excessiva, até desse destaque o afasta. Facilmente se vê quanto ha de heroico na virtude perfeita, e o notavel escritor é dos poucos que ao talento superior junta a virtude sincera.

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Jaime de Magalhães Lima, com aquelas barbas de neve, com o olhar plácido e franco dum velho cristão, vegetariano, simples em todos os habitos, é um poeta-filosofo, um romancista-sociologo e um critico-pensador.