E, atualmente, não sabemos doutro mais elevado de intelèto, mais verdadeiramente pensador e artista, do que Jaime de Magalhães Lima.
Quem é?
Ninguem em Portugal desconhece os Magalhães Lima. Um velho austero e popularissimo em Aveiro usou esse nome, legando-o a dois homens singulares de meritos, a dois irmãos: Sebastião e Jaime.
O primeiro entregou-se á onda do povo, dominando, arrastando por vezes os espiritos com um verbo ora romantico, ora rigido, talvez intolerante, mas talvez no intimo cortado de duvidas profundas. Expandiu-se brilhantemente no jornal, no opusculo, algumas vezes no livro. Galgando as fronteiras, bebeu no estranjeiro as sinteses mais sedutoras e novas, propagou-as com valor, com fé, com tenacidade, deu-se com elas todo á politica, fez-se combate e a seguir meditação para voltar a ser luta, ora quebrantada de melancolia, ora amargurada de deceções.
É evidente que esse homem teve logicamente a popularidade que, afinal, nunca mendigou. Não a evitou, embora não a suplicando. Não a desamou, embora pedindo-lhe por vezes ou mais justiça ou mais cordura.
Jaime ficou no seu lar e no seu jardim, ao pé das suas flores e das suas brumas. Como? Egoistamente? Fruindo a fortuna, o prestigio paterno, o renome do irmão, o livre amor da Arte? Responde por nós Sebastião de Magalhães Lima, numa tarde melancolica, nevoenta como uma utopia, dentro do seu pequenino gabinete da Vanguarda:
—Quem me dera ter a elevação mental e moral de meu irmão Jaime!
Eis uma definição alta e independente, digna como a Justiça sem mácula.
Jaime de Magalhães Lima refugiava-se: não fugia da luta. Do refugio, fez o estudo; fez a conciencia. Leu ali tudo, ouviu todos, e depois ouviu-se a si mesmo dentro de toda a liberdade. Tutela mental não a aceitou a ninguem; se a procurou mais tarde, foi porque a encontrou no caminho como voz de conciencia alheia que concorda com a nossa.
Não se esqueceu da frase de Malebranche: Todos pretendem ter razão, ao seguirem afinal as sugestões dos seus sentidos. Compreendeu cêdo aquêle perigo que apontou Pascal no imperio do amor-proprio, imperio que significa o maior ódio á verdade, e viu, com o mesmo grande homem, que o principio da moral é esforçarmo-nos sempre por pensar bem.