D'aí esta decadencia mental e moral, toda reflètida na pequenês da Critica.
D'aí um dos grandes problemas da liberdade a conquistar. Talvês a Republica o venha a resolver lentamente, com profundas angustias intimas, tão crueis como as de tantos que, na melhor das intenções, para não excitarem os ódios dos cégos e dos furiosos, aparentam crer que a politica póde impôr a fé ou o ceticismo religioso, a velha ciencia, ora dogmatica ora metafisica no seu materialismo, ou a moderna, essencialmente positivista, sim, mas porque não abre só os olhos da Razão, e dá emfim liberdade cientifica e pura aos do Coração.
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A boa alma portuguêsa, resplandesce de continuo em prodigios de heroismo. E o heroismo em Portugal está em toda a parte. É condição etnica. É atributo de povo celta, beijado de perto pelo mar profundo e carinhoso.
Apezar de a nossa critica ter raras conciencias livres, houve sempre, e ainda ha, trabalhadores intelètuais que sofrem pelo seu ideal sem transigencia com o flagelo da impopularidade. Nem todos se bandeiam com os favores da opinião desvairada. Nem todos procuram na politica, além dum talher, um carimbo com esplendor de corôa. Ha ainda alguns que não perdoam a Garrett elogiar-se a si proprio nas gazetas, e que, só porque ele foi orador primoroso, homem do mundo, legislador feliz, não vão negar que o Arco de Santana é mediocre, que as suas poesias liricas nunca excedem as de Soares de Passos, Simões Dias e João de Deus, e que, se não fôra o seu destaque politico, a beleza lapidar do Fr. Luis de Sousa, da D. Branca, das Viagens e do Camões, não teria encantado tanto aquêles mesmos que não viram no feroz Padre Macedo, caceteiro torvo de D. Miguel, o primeiro poeta didático de Portugal e da Peninsula.
Ha muitos ainda que não descem á construção astuta da sua imortalidade, pondo-se á frente de todos os movimentos com probabilidades maiores de vitoria, vestindo-se de apostolos e de leões, segundo o lance, ora usando óculos de profeta, ora vestindo mantos de senadores com um rochedo de Patmos á mão direita.
Por Deus, que ainda ha, e haverá sempre, em Portugal verdadeiros livres-pensadores e por isso heroicos, sem reclamo na sua abnegação e laboriosidade intrepida.
Anulam-nos? Respondem, trabalhando. Morrem ignorados na liça, ou sistematicamente deslembrados? A sua agonia é um sorriso; a sua resignação ilumina as gerações porvindoiras, e dessa luz vem a mais tarde a justiça inteira.
Assim sucedeu ao próprio Shakespeare, esquecido durante dois seculos. Assim, entre nós, sucedeu ao cronista Brandão que Alexandre Herculano rehabilitou.
Assim foi visto, em plena gloria de Garrett, aquele alto poeta, que Camilo festejou, Inacio Pizarro de Morais Sarmento, tão companheiro no olvido—sempre temporario dentro da justiça dos povos—de Pedro de Lima, de Jorge Artur, de Hamilton, de José Augusto Vieira, de Simões Dias, de Antonio da Costa, de Antonio Tomaz da Silva Leitão e Castro, de Pereira da Cunha, de João de Lemos, de Alexandre da Conceição, de Guilherme de Azevedo, e de tantos, por vezes suplantados por homens muito menores.