Como querem Arte livre sem critica livre? Como querem os escritores e os editores que o publico leia, se os poucos não analfabetos do país, em vez de lêrem tudo para discutir tudo, ainda têm diante dos olhos o seu Index conforme o partidarismo apaixonado que os domina?
Quem ha de trabalhar num meio assim? O verdadeiro trabalhador? Mas esse não procura nunca os criticos vulgares. Procurá-los é confessar baixeza, é ter até de oferecer deprimidamente jantares ou ceias, ou joias, a troco de elogios, é renegar implicitamente toda a ciencia e filosofia moderna, toda a razão e toda a fé e sentimento; é aceitar um qualquer partidarismo intolerante; é pôr a Arte debaixo da tutela de qualquer efemero fetiche; é condenar-se a ser escravo do erro, se ele domina, ou da paixão se ela triunfa.
Ficam, pois, só vitoriosos e livres os maus trabalhadores, os que não têm sinceridade, os que não têm principios.
Em vão a Ciencia e a Razão lhes dizem que a Republica, por exemplo, em todas as suas demolições é compativel com todos os grandes principios, até com os dum elevado espiritualismo; que se póde ser cristão e ser democrata, obrigando o Estado a separar-se da Egreja dentro da justiça pura; clamando ao atual governo que não páre, que êrga o verdadeiro edificio da liberdade, que vá, pouco a pouco, demolindo e construindo, dando golpes energicos á Burguezia da agiotagem e erguendo os humildes, o Povo, dentro da conciencia desoprimida.
Eles não ouvem, nem pódem ouvir, tanto na vida politica como na vida artistica. Convém-lhes perturbar. Merece-lhes todo o apoio o Capitalismo que exploram. O que os preocupa é vencer depressa. Nunca é um ideal, porque este, quando sincero, é feito de toda a justiça, dentro de toda a austera tolerancia. O que os atrai é a popularidade e ela, embora mais tarde por vezes de nada sirva, lisongeia agora o amor-proprio de quem nem possue talento nem caráter, de quem não é democrata se não para poder ser plutocrata.
E estes séticos de hontem e acomodaticios de hoje é que fazem a Critica contemporanea, raras vezes digna. Vemos que elogia ignobilmente, e incondicionalmente, só o correligionario, ás vêses de ha minutos, ou só o que é audaz no pedir, ou só o que é habil no grangeio de amizades entre plumitivos, ou o que, algumas vezes, encontra a peso de oiro uma trombeta passiva e estrepitosa a aturdir a opinião, os ingenuos, os simples e, emfim, por contagio, os proprios cultos e inteligentes!
Onde está, pois, o lugar dos grandes e verdadeiros trabalhadores?
Raras vezes aparece. Para o corajoso e liberrimo cristianismo de José Caldas lhe não negar a primasia de democrata, foi preciso que a Republica tivesse dado o exemplo da sua gloriosa imparcialidade, fazendo, do grande homem de letras, seu ministro em Roma. Assim, para Joaquim Costa na Espanha, morrendo na velha fé, ter a apoteose admiravel que foi o seu enterro, justiça triunfal a um lutador de sempre, foi preciso que o partido republicano espanhol emudecesse os intolerantes negros e escarlates com a luminosidade e generosidade da obra do extinto, gloria peninsular e mundial.
Mas, que admira, se na França Emilio Littré deprimiu, não ha muitos anos, a progressão moral de Augusto Comte, favorecendo com azedumes e sofismas o odio estreito da Madama que nunca perdoou ao marido o predominio espiritual e as graças angelicas de Clotilde de Vaux? Não se esqueceu então Littré do valor mental de Comte só porque supôs apostasia sétaria o que era progressão psicológica? Poderemos nós ser superiores ao amado figurino?
Nada de estranhar é, pois, que tenhamos ainda, não já oficial, mas sempre prepotente, uma perfeita e absurda Meza Censoria.