Veio, entretanto, a Liberdade no constitucionalismo. Como vitoria? Infelizmente mais como vingança do que como evolução. As verdadeiras vitorias não se vingam: destróem, mas construindo. A liberdade do constitucionalismo foi principalmente represalia e assim a velha intolerancia não se extinguiu: deslocou-se, dissimulada, cavilosa.
Extinguiram a Meza Censoria? Decerto, mas não se extinguiu o espirito do faciosismo, meza censoria latente e multipla que perpetra os mesmos crimes contra a liberdade do pensamento e do sentimento.
O regimen constitucional opôs á intolerancia a intolerancia, ao odio o odio, ao despotismo sanguinolento, odioso em suplicios fisicos, a tirania da opinião preconceituosa sobre todo o trabalho mental.
E esta com um involucro repugnante: a hipocrisia. Todos são livres de opinião! clamaram os caudilhos de Mousinho da Silveira. Entretanto, quem ficáva deveras livre era só a opinião dos dirigentes do regimen.
Divergir corajosamente dela era o escandalo. Se a obra intelètual não ficava suprimida de direito, ficava-o de facto, tão excomungada, tão deprimida, que ninguem a lia.
Esta tirania mental e moral criou entre nós a critica, como da Monarquia a acaba de receber a joven Republica.
Os atuais governantes já a devem ter lobrigado no seu antro, onde esperamos que a hão de sanear. Diz-se liberal e é absolutista. Diz-se justiceira e é pessoalista e sètaria. Apregôa independencia, e acarinha apenas vaidades individuais. Guia-se pela influencia dos habilidosos e audazes. Flagela os cabotinos e, afinal, para alcandorar muitos deles, ou desdenha dos honestos, ou beneficia estes com epítetos de misericordia, que são afrontas flagrantes, ignobeis.
Não tem, não póde ter, meios termos: ou turibulo ou chicote. Não arranca das trevas um desconhecido de merito, mas arraza de lentejoilas muitos nulos.
E, entretanto, todos se queixam de que a nossa literatura e a nossa arte tombam em decadencia.
Mas, porque não, se Portugal se tem regido sempre pela peor tirania, pela adulteração da Liberdade?