Falamos em Lessing, e o nome deste ingente torturado traz á memoria o do critico Winckelmann, seu colaborador radioso na purificação e dignidade maior da critica alemã.
É que um e outro foram dois excessos, dois exageros combatentes e por certo Jaime de Magalhães Lima, que tanto preza Carlyle, se apaixonou, conhecendo o primeiro, pela orientação alegorista do segundo, todo embebido na alma angelica de Platão, mas tambem muito tolhido pela estetica exangue do pintor Oeser. Porém,—di-lo a sua obra—soube achar o meio termo, como, especialmente no romance, pôs no seu logar Balzac e Vitor Hugo, e saudou a magnificencia de Flaubert sem deixar de amar a concisão espiritual de Tolstoi.
Tendo esta pujança moral e mental, não se iludiu com o cinismo brilhante de Eça, ora acrata ora aristocrata, nem se algemou na idealização, por vêses excessiva, de Julio Dinís, embora este seja o nosso verdadeiro e grande realista, o Maior dentro dos sentimentos nacionais.
A prova do que afirmamos assim está em qualquer dos romances de Jaime de Magalhães Lima.
Na Paz do Senhor. A analise póde, a espaços, ter demasias, hoje repelidas na morte plena do zolismo.
Não demasias de crueza moral, mas de pormenores que já o Eça detestava no fim da vida.
Mas é rigorosa, metódica, pura. O meio emerge inteiro e real, nosso. Não é só o descritivo magistral e animado que o revela: são, principalmente, os carateres e o enrêdo.
O que não ha é o predominio pascóvio dos òtimismos á Pangloss (degeneração do romantismo), nem os pessimismos sádicos dos Gourmont (realismo triunfante). O meio é real, tem aspétos bons e maus, e a moralidade, deixando os sermões, aliás brilhantes, da Cabana do Pai Tomás, resulta lógica, sem vergonha de existir, sem medo de cair no ridiculo.
Tipos verdadeiros, excelentes: o Valadares, tão nosso, o Antonio Carvalhaes—que a Republica vai ter pela prôa nas proximas Constituintes—o Monteiro, o Mirandinha, o Frederico e o Prospero, este mais vulgar do que os criticos imaginam. Realidades puras: a D. Rosa, o Carlos de Macedo, o Duarte de Melo e a mulher, a Isabel e o seu Basilio—nada parecido com o lustroso mandrião do Eça. A abnegação do Frederico, principalmente, soberba de verdade. Não é um corruto, mas tambem não é um santo. Não é um genio, mas tambem não é um espirito mediocre. O seu sacrificio tem a nódoa dum egoismo, mas é humano dentro duma conciencia iluminada.
E no Reino da Saudade e no Sonho de Perfeição, a mesma larga vida concècional, o mesmo espirito de religiosidade cristã, mas purissima, caratéres nitidos, descrições primorosas, noção profunda da vida agricola, da burguesia-esponja, do preconceito-pôlvo, da paixão-álcool.