Tudo assim, egual, perfeito, espontaneo, sem desmandos gritantes, sem covardias morais, sem claudicancias do inteléto. E eis o que sobeja para dar ao nosso romance um rumo seguro e radioso que na França, apezar dos romances-poêmas e dos romances-sociais da escola hodierna, espiritualista-positivista, ainda não foi traçado com gesto definitivo. Mas esse rumo, se o não querem ver, ha de impôr-se. Se o árabe diz a verdade, quando afirma que os cães ladram, mas a caravana passa, menos se iludirá quem vaticinar caminho seguro á caravana, só porque coaxam algumas rãs, chamando desfastios aos Contos do Natal de Candido de Figueiredo, ou a qualquer deliciosa revelação da arte verdadeiramente portuguêsa á qual Jaime de Magalhães Lima não dá só muito trabalho, como muito talento e muita conciencia.

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É lógico que mentalidade tão robusta e sentimento tão sincero dêm um critico notavel. Tal o é Jaime de Magalhães Lima no livro e no jornal, e com o esplendor dum eminente e livre sociólogo, dum democrata livre, sincero, altissimo.

Neste ponto, a nosso ver, a sua obra-prima é aquêle livro, cheio de modestia e luz, d'amor e verdade, chamado Servo e Menor S. Francisco d'Assis. Bem sabemos que o critico se inculca como simples decalcador de Sabatier, como, de passagem, sabemos com estranheza que, lendo Macdonell, Howel, Lechwer, etc., se esqueceu de Prudenzano e da amoravel Pardo Bazan, nada despiciendos na psicologia admiravel do Patriarca mais republicano da Egreja.

Mas, em toda essa obra sadia e profunda, o seu espirito clarividente, por mais que o oculte, surde com evidencia gloriosa. A narrativa de honesto biógrafo denuncia a vida filosófica de quem a faz, e essa é por vêses muito mais afim do espirito imaculado do Santo, modelo de Democracia pura, do que o do proprio Sabatier, apezar de mentalidade prodigiosa.

Admiradores conhecidos de S. Francisco d'Assis são Guerra Junqueiro e todos os modernos poetas de alma. Um orador brilhante, coragem real no nosso meio, Leonardo Coimbra, rasgada democracia numa conciencia livre, terá dito, ou poderá dizer-nos ainda, muito da elevação cientifica que vive na espiritualidade do imortal revolucionario de Assis. Nenhum, porém como Jaime de Magalhães Lima fês, do espirito do Santo, o seu proprio espirito.

Nenhum, pois, quanto a nós, póde exceder o valor modelar da sua critica em assunto que é todo da sua alma, na crença convicta, no anceio intimo, no aperfeiçoamento progressivo da bondade, vida livre e fecunda da sua inteligencia e do seu coração.

Estudando Alexandre Herculano e José Estevão, Jaime de Magalhães Lima não pretende fazer estudos integrais. Colhe alguns aspétos, para ele predominantes, e, como sem preconceitos e tem uma linguagem nobre, pura, original, deixa dois livros primorosos, perfeitos, completos.

Não tem, não póde ter, a dureza rigida de Gustavo Planche. Este, como dizia o justiçador de Balzac, Edmundo Werdet, era—egoista, de coração de aço, de torso do Antinous, de pernas de argila, implacavel com tudo que não fosse obra sua, de estilo corréto, mas seco e frio.

Jaime de M. Lima é forte, mas tolerante, magestoso mas simples como os patriarcas biblicos.