Ninguem póde tambem esperar dele a venalidade de Sainte-Beuve, o seu espirito de intriga, capaz de felonias como a que perpetrou com o enorme poeta Alfredo de Vigny, o pessimista dolorido.

A grande bondade de Jaime de M. Lima, genializada por uma intensa paciencia, afastam-no da cólera, e a sua desambição perfeita livra-o por completo de transigencias com o logar-comum e com o estrondo sètario.

Assim, José Estevão é por êle rehabilitado contra os fanaticos de qualquer campo.

Não, o fogoso tribuno não foi Danton, vulcão, impeto cégo, catapulta muitas vezes salpicada de sangue.

Não foi, porém, Robespierre, razão fria, espiritualismo e egoismo, astucia e fé em aliança assombrosa.

Com o vigor do primeiro, não teve a sua impudencia: com o bom-senso do segundo, não teve a sua hipocrisia.

Foi muitas vezes Lamartine, até no pleno gosto artistico e no sonho, e foi nos raptos bastante Mirabeau; um Mirabeau com a visão melhor da moderna sociologia, e portanto sem a mascara disforme do homem-tempestade.

No fundo, a sua eloquencia era toda de bondade, como a de Fernandes Tomás em 1820, como a de Antonio José de Almeida no nosso tempo.

Se trovejava, os seus raios eram farois, não eram agentes de cega ruina.

Parece esta a conclusão sintetica do belo trabalho de J. de Magalhães Lima sobre José Estevão.