—Lisongeiro!

—Lisongeiro, eu, minha senhora? Como a infelicidade{15} me bafeja todas as vezes que pronuncio uma verdade!

A sua voz arrastava-se n'uma tonalidade sentida; dir-se-hia que as lagrimas iam a rebentar d'aquelles olhos baços das orgias, em face d'uma grande concentração d'affecto.

Ermelinda olhava-o distrahidamente e gostava de se adormecer ao som d'aquellas palavras, docemente proferidas, que poucos homens lhe tinham dito com tanto sentimento!

A quadrilha terminou; os rapazes mais cheios de familiaridade, conversavam com as senhoras; mas dentro o Juca esperava-os com deliciosos charutos—que não podiam perder-se.

—E d'ahi um calice de Madeira, offerecia o Mendes, nós cá não temos ceremonias, ein! são boas ellas para a missa, entendeu você, sôr Alberto?

Agrupavam-se em volta da mesa; os liquidos, como n'um apparelho hydrostatico, desciam de nivel nas garrafas para subirem nos estomagos. Os caixeiros esvasiavam calices com uma soffreguidão mal educada—de quem apanhava d'aquelle poucas vezes.

A senhora do Mendes examinava com cuidado, curvando-se, as bandejas do chá e dos dôces que iam servir-se ás senhoras; dispunha as garrafas de crystal em salvas de prata e distribuia aos creados as ramificações d'aquelle serviço. Depois voltando-se para o sobrinho:

—Juca, vae servir as senhoras, avia-te!

O Alberto n'este momento enchugava os labios do sexto calice que havia esvasiado; offereceu-se{16} para acompanhar o seu amigo—n'aquella agradavel incumbencia—dizia.