—Uma quadrilha, papá!

—Seja, eu chamo o tocador! tirem pares, tirem pares—disse passando entre o grupo dos homens.

D'ali a instantes um d'estes artistas obscuros, na gala festiva do seu casaco preto roçado pelo uso, sentava-se ao piano e preludiava uma quadrilha.

Os homens vinham entrando de vagar, tomavam pares, animavam a sala de grupos. Começava a levantar-se um pó fino, que excitava as tosses.

O Alberto dançou com Ermelinda.

—Olha, não te dizia eu!—murmurou a Bastos para uma visinha.

A musica de Angot elevava-se sonoramente do teclado; a quadrilha começou.

As senhoras velhas deslocavam-se para conversar,{14} agrupando-se em volta da dona da casa; algumas meninas que não tinham dançado, levantavam-se com grande despeito e tomavam o caminho da toilette, onde iam empoar-se; outras porém reuniam-se, vingando-se da descortezia da sorte, em aguçar as linguas rosadas e viperinas n'uma analysesinha burlesca dos pares que dançavam; tinham um vivo prazer sobretudo em pôr nomes, em chamar a um pé de cabra, a outro o alho vivo, áquelle que dançava mais pesadamente o pataco gordo, rindo muito, umas gargalhadinhas abafadas, que chamavam a attenção dos pares.

Entretanto o Alberto tinha phrases d'um effeito romanesco, com que melodisava os ouvidos da filha do director do banco; inclinava-se com profundas reverencias nas diversas evoluções da quadrilha e depois, quando erguia a cabeça, os seus olhos envolviam largamente, com magestade, os olhos de Ermelinda, que recebia esse fluido penetrante, fazendo purpurear o rosto por um phenomeno reflexo, que a physiologia não sabe ainda bem explicar, quando se trata de mulheres que namoram. Quando os outros pares dançavam, Alberto um pouco mais alto de estatura, abaixava-se para ella, murmurando phrases d'um sentimentalismo de Antony, que ouvira muitas vezes no theatro.

—Creia vossencia, dizia, que só um coração de gelo poderia deixar de impressionar-se ante a fulguração d'um olhar d'esses.