—Mas sempre musica, realmente!... eu tambem toco, mas, confesso-lhe, ás vezes aborreço-me; a gente nem sempre está com disposição.
—Tem razão, é verdade, mas olhe, então variamos; lemos juntos, eu gosto muito de Elliot, de Michelet, de Taine, e de Dickens, que é o romancista da minha patria; e ás vezes quando a leitura nos não distrahe, e que a nossa alma precisa como que receber um bocado d'essa onda de sociabilidade, vamos ao theatro tambem, não nos julgue mysantropos; o Roberto ás vezes não quer ir, diz-me que não; mas eu conheço-o, nós as mulheres lemos bem no pensamento d'estes senhores; não é depois que appareça o tédio que eu devo distrahil-o, é em antes, que eu devo fazer com que não haja tempo de formar-se; e não se fórma, assim, tenha a certeza!—
A physionomia de Bertha illuminava-se-lhe docemente espelhando a luz da sua consciencia limpida, crystalina, que fazia d'aquelle amor uma religião; era branca, da brancura nevada das filhas do Norte, o olhar azul meigo, como uma ambrozia; a face rosada, d'um colorido de saude; a gracil agilidade das miss, uma insinuação que attrahia, que fazia estar bem junto d'ella.
Tinha uma actividade de spinster, pondo em tudo um conforto macio, um aconchego carinhoso,{128} alegre, limpando ella mesmo a sua salinha, o seu gabinete, vigiando a sua casinha, confeccionando pelas suas proprias mãos o prato favorito de Roberto, que vinha ás tardes, do Porto, o espirito fatigado, um desgosto de clinica, um doente que lhe morrera, apesar de todos os esforços,—mas que ao vel-a toda branca no seu roupão claro, offerecendo-lhe a face e o jantar, esquecia tudo, espreguiçava-se na sua indolencia de senhor e até
—nem tinha vontade de sahir de casa—dizia,
Ermelinda sentia a seu pezar o influxo d'aquella honestidade sã e boa, e as palavras de Bertha, enchiam-a d'uma claridade intima, que ella procurava assombrear com a tinta escura do seu ideal corrompido. Amesquinhava-a, deprimia, pensava em que tudo aquillo podia muito bem ser uma mentira, uma falsidade..
Mas a protestar contra estas ideias de vileza os objectos mudos pareciam levantar-se na sua simplicidade de coordenação e bom gosto. Os moveis, os albuns, os quadros, as musicas, as cortinas de cassa das janellas, as begonias opulentas nos seus vasos de dez tostões, o chão encerado das escadas, os metaes das portas polidos como espelhos, tudo revelava um gosto de aceio, uma alegria de suaves expansões, uma intelligencia curiosa e activa,
—que ella não podia deixar de reconhecer a final—
—Mas não era ella, não, aquella magra loirinha, que fazia aquelle milagre; oh, é por que tinha um bom marido, isso sim!—e comparava-o {129} Alberto com o Doutor, fazendo-lhe a saliencia dos defeitos, dos vicios que todos os dias se iam revelando com um impudor cynico—
—oh, tivera ella um marido como o outro e veriamos—e o seu espirito divorciava-se lentamente do espirito do seu esposo, accusando-o de grosseiro e hypocrita, de menos cavalheiresco, de não ter a fina comprehensão dos sentimentos delicados do coração feminil.