—Oh, Pulcheria—chamou para a criada—leve a menina e dê-lhe biscoutos—era preciso ter cautella em fallar diante de creanças—dizia prudentemente.
—E então a Rosina que era tão viva.—
—Pois por isso mesmo; então menina, conta lá.—
Fez-lhe uma confidencia completa; narrou-lhe dolorosamente a inutilidade dos seus enthusiasmos em o regenerar, as suas noites perdidas, as violencias de que era victima
—que visse,—e mostrava-lhe os braços com largas echymoses, como nodoas de tinta postas na tez assetinada.—
—Mas isso é um horror, filha, tu não pódes continuar a viver com esse monstro.{203}
—E ainda aquillo não era nada, que fosse vendo, que fosse vendo—descobria-lhe o corpo, n'um impudor precipitado, nodoas roxas apparecendo a macular a brancura da pelle.
—Mas eu tudo lhe perdoaria, tudo! a ultima, porém, que elle me fez, a de me levar a casa aquella maldita mulher, obrigar-me a servil-a, oh! D. Clementina, eu na presença d'ella não chorava, não lhe queria dar esse prazer; mas depois, quando estive só, as lagrimas eram como punhos, queimavam-me.
A D. Clementina enternecia-se, consolava-a com brandura, tinha para suavisar-lhe aquellas dôres palavras dôces, d'uma ternura lacrimosa, chorando tambem.—
—Mas nem mais um dia com esse homem! é tratar da separação, e isto já, antes que elle te dê cabo do que é teu e da tua filha; ainda que não fosse senão por causa da pequena, que está a ser escandalosamente roubada, e depois que exemplo!... bradava ao ceu.—