—eu fui um bocado violento, devemos confessar,—mas com um raio, não era para me fazer isto!—comparava-a com a Annita, que o tinha aturado um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus caprichos,

—e vou-me até lá, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faça de mim um personagem...—

Fluctuava já indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante da figura arrebicada e travessa da Annita,—que riria muito, e pediria champagne para festejar a sua liberdade d'elle.—

—Vida airada, e nem se lembrava de tal! já devia ter sido ha mais tempo.—

Não o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; não sentia a{216} falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o aborreciam! O que elle queria era dormir, descançar, quando vinha de fóra,—aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe sombras fluctuantes, como as visões de sonhos incompletos! E agora parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e embriagante.

Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns habitos preguiçosos de cocotte, deshonrando-se, se tinha de por-se a pé antes da uma hora.

Sentou-se na margem do leito.

—Sabes Annoca, estou sem mulher!...

—sem mulher, conta lá isso—e sentou-se, o corpo recostado na almofada, a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiçosa por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se n'uma linha correcta d'uma côr leitosa e velludinea.—

Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se n'uma provocação concupiscente.