—é d'uma bondade grande, lá isso é, e delicado, tem uma alma generosa debaixo d'aquella apparencia—disia Ermelinda—e ficava calada, um pensamento volteando na sua imaginação ociosa, de romantismo desilludido, pensando n'aquelle baile em que pela primeira vez tinha conhecido os dous, o commendador baixo e desgracioso, como um tronco de velha arvore, o Alberto{221} elegante e esbelto como um jasmineiro perfumado,—
—como as apparencias enganavam—suspirou.—
Mas a D. Clementina principiou a desconfiar d'aquelles elogios apparentemente banaes; uma pontinha de ciume a mordicava, umas picadas ao arrepio no seu sentimentalismo serodio, e tinha ás vezes respostas enviesadas, um pouco acrimoniosas, de quem está na sua casa, fazendo um favor e recebendo uma ingratidão em troca, isolando-se um pouco nos seus aposentos, pretextando visitas para deixar Ermelinda sósinha, dando-lhe a entender que lhe estava sendo pesada, picando-a no seu orgulho, como entendia que ella a picava no seu amor.
Ermelinda tragava em silencio aquellas desconsiderações que a magoavam,
—sim, que havia ella de fazer n'uma casa sósinha com a filha?... e depois as despezas! ali não pagava aluguer de casa, nem criada, isto já não era pouco!—
Mas um dia a Joaquina veiu visital-a, encontrou-a a chorar, quiz saber o motivo e ella então contou-lhe:
—as affrontas que soffria, um sorriso quando estava alguem, mas um mau modo quando estavam as duas, tornara-se impertinente, tinha respostas bruscas que offendiam, parecia que lhe comiam o pão tambem,
—pois é arranjar uma casinha, olhe, eu já agora não a deixarei; não me dou muito bem com a Amelinha, ella não é má, mas aquillo é um desgoverno,{222} é uma casa de Orates, ninguem se entende ali, cada um pucha para seu lado.—
Convencionaram por fim, em que seria a Joaquina que arranjasse a casa,
—uma casinha barata, retirada podendo ser; haviam de levar a vida, não tivesse medo—confortava a boa da criada.—