A Adelaide escutava-o e sorria-se; lá bem no seu intimo achava-o tolo, mas a educação impunha-lhe o dever da admiração, e a sua voz, se algum dia se levantasse para dar uma opinião ácerca de Alberto, diria que era um rapaz elegante, fallando muito bem, com muito sentimento.

Pouco a pouco os convidados foram-se retirando. As senhoras sahiam muito embuçadas nas suas mantas de lã, aconchegando as capas sobre o pescoço, que o ar frio da rua espreitava com uma anciedade de bronchites.

Na atmosphera da sala um espesso ar condensado de gazes embaciava. As velas de stearina desciam ao nivel das aparadeiras e as heras tinham um verde pallido, que entristecia. O piano, como um grande monstro adormecido, mostrava os seus dentes de marfim, cançados de mastigar notas desafinadas.

O Mendes examinava todas as salas com um cuidado minucioso; sobretudo o quarto do Juca merecia-lhe dobrada attenção.{25}

—Ás vezes, alguma ponta de charuto, um descuido qualquer, podia originar um incendio—dizia cheio de cautelosas prudencias.

A Adelaide no seu quarto despia os atavios da festa; o seu corpo alquebrado deixava-se lentamente cahir n'uma molleza do esgotamento.

Estava morta por tirar aquelle maldito penteado,—dizia—nunca mais se serviria d'uma tal cabelleireira; e o collete como a apertava!

Em baixo o Juca mettia-se na cama com um—Ah!—de satisfação, de quem termina uma tarefa; uma pontinha de alcool fazia-lhe pesar a cabeça; o somno veio logo n'uma caricia despotica, de obediencia cega, fazendo-lhe cahir das mãos um romance de Ponson, que elle tinha o habito de lêr, todas as noites, antes de adormecer.

O Mendes estava muito loquaz, desabotoava-se com uma sem-ceremonia deshonestamente familiar, passeando no quarto, olhando a Carola que se desfazia perante o toucador, mostrando os hombros nús, roliços, humedecidos por um suorsinho quente.

—Até que emfim!... respirava ruidoso, n'uma expiração forte, prolongada, dilatando as bochechas.