—Uma soirée de truz, ein, Carola!

—Que sim—e atirava para o dorso a cabelleira farta, matisada de fios brancos, ennovelando-a na touca de noite, com uma elevação de braços esculpturaes, de axilas humidas, que punham desejos no cerebro um poucochinho quente do seu velho marido, do seu Mendes.

Entrava uma luz alvacenta pelos stores da janella,{26} e fóra ouvia-se o movimento murmurioso d'uma população que desperta. O canario começava a pipilar na gaiola, sentindo as livres aves gorgearem na frescura dos quintaes, e, na rua, os vendilhões ambulantes povoavam de sons estridentes o ar nebuloso da manhã primaveral.

[II]

Tinham decorrido quinze dias.

O namoro havia pegado, consolidara-se. Com uma certeza chronometrica o Alberto passava invariavelmente, todas as tardes, em frente da casa de Ermelinda.

Uma vidraça corria no primeiro andar e logo depois a filha de Jorge apparecia, com um sorriso engatilhado nos labios e um alto penteado na cabeça, emmoldurando-se no fundo escuro do desvão da janella.

A visinhança reparara a principio.

—Havia mouro na costa—diziam—mas pouco a pouco a tolerancia estabelecera-se, uma indifferença ordinaria, de coisa vulgar. A sua badine que tanto prendera as attenções, pelas curvas hyperbolicas que traçava no ar, fazendo signaes, já não despertava interesse; o lenço branco, rendilhado, simultaneamente absorvente dos defluxos e das impressões amorosas, ia creando o bolor dos esquecimentos, como teria creado o bafio das secreções. O namoro tornara-se um facto consumado, ordinario, sem a irritabilidade dos excitantes.{27}

A casa do Jorge tinha uma frontaria só; era como uma cellula engastada no favo immenso da rua; apenas existia, formado por um angulo reintrante da casa proxima, um pequeno recanto, d'onde se exhalavam fortes vaporisações ammoniacaes. O Alberto, que não podia remediar esta inconveniente disposição, utilisava-a. Era d'ali, que elle, occulto pela sombra do predio, procurava fallar com Ermelinda.