A noite adiantava-se. O transito ia gradualmente diminuindo; a patrulha, n'uma locomoção arrastada e ordeira, tinha a apparencia vaga dos ruminantes na solidão dos campos. Clareações de gaz punham sombras indecisas, formando na rua projecções phantasticas. Uma faxa de ceu, limitada pela vertical dos edificios, mostrava estrellas descoradas e pallidas, como lantejoulas sujas d'um vestido de comediante.

Adejavam surdos murmurios d'um movimento longinquo; e proximo, n'uma tanoaria, um martellejar compassado e monotono affirmava vigilias prolongadas d'um trabalhador obscuro. Ao fundo da rua um leque de luz sahia da porta meio aberta d'um armazem de vinhos; sentiam-se vozes disputar, e na esteira luminosa atravessava de quando em quando um ebrio, que forcejava por conservar um equilibrio digno. Abria-se alguma janella com estrondo e um choque d'aguas, chapeando na rua, indicava uma contravenção do codigo municipal.

O Alberto vinha sempre muito aconchegado no seu pardessus, a garganta agasalhada nas dobras quentes de um cache-nez; mansamente, como{28} uma cobra que deslisa, elle introduzia-se no recanto proximo e accendia um charuto.

Era o signal.

Uma vidraça rangia no primeiro andar da casa de Jorge, e a Ermelinda, muito intrigada, cheia de pequenos sustos deitava a cabeça de fóra da janella, investigando no espaço os raros vultos que passavam, como se receiasse compromissos.

Cumprimentavam-se com trivialidades, ligeiramente. Depois o Alberto, no desempenho romantico do seu papel de namorado, arremeçava para o alto umas phrases sonoras, d'um gongorismo empolado, crepitantes, como foguetes de lagrimas n'um ceu luarento, em noute de arraial.

—Que não acreditava, que era uma impostura.

—E porque não?

—Os homens! quem podia fiar-se n'elles! havia por ventura nada mais falso?—dizia muito queixosa das amarguras da sua experiencia malograda, em coisas de namoro.

—Ah! que elle não era assim!—protestava—que sentia por ella um immenso amor, infinito, como só uma vez se conhece na vida.