—E mais quem!—sorria, n'uma duvida amavel que lhe lisongeava a vaidadesinha de conquistador.
—Podia jurar-lh'o—affirmava—por tudo o que houvesse de mais sagrado aos seus olhos, pelo seu coração, pela sua sorte, pelo proprio Deus!
Ermelinda calava-se. N'estes momentos parecia-lhe que, se fallasse, profanaria a musica apaixonada e sublime d'aquellas juras d'amor; concentrava-se{29} sobre as suas phrases cheias d'uma secreta adoração mystica e sentia-se invadir d'umas sensações deliciosas, que a enterneciam.
—Não! elle não podia mentir—pensava—como era feliz em ser assim amada!
Um extasi ineffavel a envolvia docemente, suavemente, como um banho tépido d'essencias perfumadas. Se interrogasse então a voz occulta do seu espirito, não poderia dar uma definição de si propria.
—Ah! se podesse voar com elle para um ceu distante, para o desconhecido!... que felizes que seriam!...
Deixava-se fluctuar na atmosphera quente da rêverie, como as grandes aves serenas e mansas, que dilatam as azas, pairando, sobre as alturas do azul. Mas elle em baixo, quebrando a cinza branca do charuto, interrompia:
—Em que pensava?
—Ah! nem ella poderia dizer-lh'o.
—Que era talvez em outro; notava n'ella certa distracção, bem se via, uns modos... tão poucas palavras!...