—Olha, menina, é n'essas pequenas coisas que consiste a felicidade.—
—Boa! ahi queres tu prégar-me um sermão de moral! oh, menina, enche-me este calice; mas ainda agora reparo que tens lagrimas nos olhos!
—Lagrimas, eu! estás doida!—
—Coitadinha da pequerrucha, que quer illudir uma mulher casada—disse arrastando a voz n'um chilrear cantadinho—e batendo-lhe na face palmadinhas{48} amigaveis, animando-a, pedindo-lhe a confidencia d'aquelle chôro.
—Que não era nada; ás vezes ficava assim nervosa, tinha d'aquellas extravagancias.—
—Nervosa, tambem ella era muito! o dr. Arnaldo Braga dizia que era todo o seu mal—e a Amelinha principiou a explicar, com grande volubilidade, as impressões que sentia ouvindo musica, ao ver no theatro um drama triste, ou então quando o seu gato preto, em certos dias, se lhe atravessava no caminho e ella, sem querer, lhe pisava a cauda e ouvia o miar queixoso do animal.
—Muito nervosa, muito! este anno vou até para a Foz e tomo um grande numero de banhos; já combinei com o Guilherme.—
—És feliz, menina, és feliz!—
—Assim!...—fez Amelinha contrahindo o labio com certo desdem! e curvando-se disse-lhe ao ouvido uns segredinhos quentes, que fizeram enrubescer Ermelinda.
—Ora!—respondeu esta—póde lá ser isso!—