Philósopho, poeta, obreiro do futuro,
Qual és, benigno acceita o canto que murmuro,
Ante as urnas da historia, á minha solidão,
Da tua ethérea luz á sombra estende a mão!
Sic fata voluerunt.
I
Era a collina sancta, e em volta a gran-cidade!
Revolvera o cabeço uma audaz tempestade
De granito e de bronze, arremeçando aos ceus
Por ondas bastioens, por vagas coruchéus!
Era nova Babel, soberba e formidavel;
Tudo o que é oppressor; tudo o que é implacavel;
Das impostas pendendo os anneis dos grilhoens;
Sétteiras nos jardins; nos eirados canhoens;
Cem vigias de pedra em cada miradoiro;
Ao rez grades de ferro; em cima tectos d'oiro;
Uma pompa violenta, uma anciosa mansão,
Que dirieis romper da bocca d'um vulcão!
A espaços, coroando a tétrica cerviz
D'um torreão firmado em rudes alcantis,
Metalico zimborio esplende ao astro esquivo,
Como o élmo que aperta a fronte de um captivo.
Emmaranham-se á vista arcadas e quarteis,
E os grossos revelins, e os rendados maineis.
A um tempo Europa e Asia, opprobrio e maravilhas;
N'um reducto um bazar; as áras nas bastilhas;
Abrolhando o recinto um selvoso espessor
De agudos campanis—e no todo o terror!
Era a suspeita armada, eterna sentinella,
Por dentro Pantheon, por fóra cidadella!
Era, ao dubio alvorar que precede a manhan,
O poema d'Igôr em torno á cruz d'Ivan;
Revolta construcção d'um Encélado novo;
Garra adunca e brutal sobre o peito d'um povo;
Funesta allegoria, affronta da razão,
Que intenta dizer: gloria! e diz: escravidão!
Era a ameaça feroz na túrbida grandeza;
Templo, ergástulo, paço, erario, e fortaleza!
Era o alcaçar do Norte, o seu sanctuario, emfim
A acrópole augural do Scytha—era o Kremlin!
II
No mais alto mirante um vulto grave e mudo,
Todo nevoas o ceu, na terra immovel tudo,
Contempla vagamente as vagas solidoens.
De força e de grandeza inda não satisfeito,
Aspira o espaço e a noite—a dextra sobre o peito
Como para conter a furia das paixoens.
A metrópole immensa, adormecida ou morta,
O immenso pedestal, que rendido o supporta,
As planuras que ao longe ondulam como um mar,
As hostes, os tropheus, a conquista, os portentos,
Nada d'isto ja vê; taes são seus pensamentos,
Tam alta a mente foi, tam fundo é seu scismar.
Quem é elle? O que faz? D'onde vem? Com que fito?
Incansavel obreiro interroga o infinito;
Paz não tem; lei não quer; vai, vai; não conta os sóes;
E se instantes parou, quando a fortuna o prova,
É para meditar alguma audacia nova,
Na attitude que toca aos Numes e aos heróes!
D'onde vem? Attentae. Correi; segui-lhe o rasto.
Nunca sulco mais fundo em terreno mais vasto!
Manda: o Occidente afflue.—Que estrugir! Que avançar!
Que longo! Que voraz! Que enorme! Que terrivel!
Esta chamma? Hontem era um castello invencivel.
Esta cinza? Era ha pouco arrogante solar.
O facho precursor alonga um ermo aberto.
Investe a legião, defende-se o deserto.
D'Átilla a grande sombra, ao ver os capitaens
Violar da patria selva os não cursados trilhos,
Pensativa procura, afastando seus filhos,
Um tumulo que sirva aos filhos dos Titaens
Quem é? O homem-cratéra; emblema, sphinge, arcano;
Tanto como um propheta, e mais que um soberano.
Um dia o viu reinar mal outro o viu surgir.
Sam-lhe os povos degraus; o imperio foi-lhe ensaio;
Na larga fronte um Deus; nos olhos d'aguia um raio;
Pelas trevas se entranha, e elabora o porvir.
De Karl, o Invicto, o Magno, o Imperador espectro,
Tomou nas fortes mãos o gladio, o globo, o sceptro;
Co'a tunica viril das desprendidas greys
Tam amplo manto fez, que esconde, dilatado,
D'um lado os Pyrenéus, os Alpes d'outro lado,
E nas sobras talhou dez purpuras de reis.
Quem é? Seu grande nome o espanto e o ardor espalha,
Como o som d'um clarim n'um dia de batalha.
Ha muito o Austro o acclama. Hoje o Septemtrião
Atérrito o escutou no horror de Borodino...
A Historia escreverá: «chamava-se o Destino!»
Á voz dos seus canhoens troou: «Napoleão!»
No humilhado frontal das basilicas nuas
Levantam-se-lhe aos pés, velando, as aguias suas,
As aguias triumphaes, as aguias d'Austerlitz.
Volve acaso o semblante. Olhou. Mira a victoria
Nos amados pendoens, que inflamma tanta gloria,
E o coração trasborda, e rompe o verbo, e diz:
III
—«Eis-me. Cheguei. Mais fúlgido
Meu astro se alevanta:
No coração do Tártaro
Encosto o ferro e a planta.
Eis-me. O leão da Córsega
Emfim vos empolgou,
Ó capital das cúpulas,
Ó torres de Moskow!
Eu sou o Ajax authentico,
A authentica epopéa,
Aurora apoz crepusculo,
Espada feita idea.
Fadou-me Arcóle e Rívoli
Marengo, e Lodi, e as mais;
Rompi d'um canto homerico
Em dias immortaes.
O mesmo sou, que os seculos,
De tanto ousar pasmados,
No cimo das pyramides
Mostrei aos meus soldados.
Fiz n'essa terra, symbolo
De olympicos avós,
Estremecer nos tumulos
Os velhos Pharaós;
N'essa, ao potente estrépito
Do arrojo e das victorias,
Cubri co'as palmas ínclitas
As maximas memorias;
N'essa, mysterio pávido
Onde o passado rue,
N'essa, de assombros pródiga,
Maior assombro eu fui.
Era Alexandre o prólogo.
Tentou-me. Em cem combates
Arremessei, seu émulo,
O Nilo sobre o Euphrates.
No turbilhão phantástico
Dos rapidos corseis,
Ardentes vi cercárem-me
Os esquadroens dos Beys;
Vi mais—ceára horrifica
De alfanges e trabucos!—
Os marciaes Janizaros,
Os feros Mamelukos;
E a densa turba innúmera,
Ao breve aceno meu,
Sombra tornada, súbito
Ás sombras se volveu.
No pó de heroicas épochas
Ficaram meus vestigios;
A par das lendas bíblicas
Tracei novos prodigios.
Aos vãos chegou do Libano
Meu bellico trovão,
E do Thabor aos pincaros,
E ás margens do Jordão.
Sobre os dispersos idolos
Meus batalhoens marcharam;
De feito a feito alçândo-se,
Ovantes acamparam
De Thebas entre os pórticos,
Em Memphis sem rival...
Fêz-se ás gigânteas fabulas
A minha historia egual.
E o proseguir esplendido
Da triumphal carreira,
Quando a meus pés atónita
Prostrei a Europa inteira!
Quando, as cohortes férvidas
Dispondo a meu sabor,
Ao fim de um dia tragico
De universal terror,
Em vindo a erguer-se o Véspero,
Surgia da metralha
Nas mãos trazendo, incólume,
Um reino e uma batalha!
Meu curso meteórico
Não pára; a lucta é van:
Succedem-se fatidicas
Iêna, Eylau, Wagram.
Sou vencedor, sou árbitro
Aos curvos hemispherios;
«Surgi» ordeno, e surgem-me,
Quaes os desejo, imperios.
Triumphos e catastrophes,
Estados, leis, naçoens,
Os fulgurantes prestitos,
As bastas legioens,
Confundem-se, ennovellam-se
Na cerração turbada
D'um cahos, ao relampago
Que vibra a minha espada.
Quiz Deus tornar-me o Génesis,
Que em breve ha de accender
Nos homens novo espirito,
Nas eras novo ser.
A evolução recôndita
Avança d'hora em hora:
Trabalho sobre a íncude
A humanidade agora.
O herdeiro dos Apostolos
Ungiu-me entre os christãos,
E eu mesmo a c'roa altissima
Cingi com estas mãos.
Deixei submisso, trémulo
Como exorando as Parcas,
Aos meus humbraes um séquito
De palidos monarchas.
Este diadema unico
D'estrellas constellei;
Em nova, summa Ilíada
Sou já de reis um rei.
E aqui!... aqui rodêam-me,
Activos serviçaes,
Os meus ministros-principes,
Meus duques-marechaes!
Fervem do Sena ao Vistula
Os arraiaes em peso,
Como nas veias tumidas
Um sangue em febre accêso!
Olhae! Conduzo unânimes,
Mais fortes cada vez,
Germanos, frankos, ítalos,
O proprio portuguez;
O portuguez, que intrépido
Sabe ir, honrando os lares,
Descortinar o incógnito
Vencendo terra e mares!
Quem ha-de pois com exito
Meus planos impedir?
Aos orbes posso o âmbito,
Com braços taes medir!...
Moscow, teu solo as máculas
D'escravo teve; apague-as:
Venci o repto altisono
Das aguias contra as aguias.
E tu, rival maritimo,
Aqui te enfreio a acção!...
Ó Russia, emfim pertences-me!
Emfim és meu, Bretão!»
IV
No ardor que o move, a mão comprime ao peito ingente,
Absorto fica, e de repente
O tolhe, e todo o enleva, um extasi sem par.
Encontrára no seio a leve miniatura,
Que o filho, o filho tenro, ao vivo lhe figura,
E n'elle o amor, a esposa, o lar.
Humanou-se o colosso. O tenue quadro encara;
Revê na mente a imagem cara;
Quer-lhe, apesar da sombra, o rosto distinguir;
Um rosto angelical, alvo, louro, rosado,
Candido lyrio em flor, de purpura orvalhado,
Que estrélla a noite, e a faz sorrir.
Foi prenda conjugal. Ao recebel-a o esposo,
Rompia o choque pavoroso
Da batalha que abriu as portas de Moskow!
Com saudades talvez, talvez tambem com prantos,
O grão conquistador anceia affectos santos...
É pae!—Depois continuou: