V

—«Ó filho, foi-te oráculo
O genio meu profundo:
Ó filho, achaste um mundo
No berço imperial.
Que resplendor, que auréola
De gloria, de thesouros,
De conquistados louros,
De pompa triumphal!
Cesar, que vens de Césares,
Deus pôz-te, alma adorada,
A tradicção, a espada
Nos braços infantis.
Nasceste rei. Teu titulo
Da mór grandesa assoma.
Nasceste rei de Roma,
E Roma o globo diz.
C'a herança conta. Alargo-t'a.
A immensa monarchia
Apuro noite e dia
No paternal crysol.
Legar-te quero o circulo
Que os povos encorpora,
Desd' onde surge a aurora,
Té onde baixa o sol.
Dissiparão no vórtice
Os diques derradeiros
Meus bravos granadeiros,
Meus esquadrões sem fim.
Da cupula estellifera
Dominarás robusto,
Ó tu, futuro Augusto,
Que és hoje cherubim.
Meu mando, egregio e próvido,
Cabal a terra invade.
Não mais que uma vontade,
Que um throno, e que um altar!
É tempo. Os fados cumprem-se.
Desvende-se o mysterio...
Universal imperio
Começo hoje a fundar!...»

VI

Nisto uma chamma, e outra, e cento, e centos
Brotam-lhe em torno, as trevas arraiando;
Abrazam-se os minados monumentos;
Cresce o mal, cresce o damno, desabando
No rubro chão os rotos pavimentos;
Negro e espesso vapor, de quando em quando,
O espaço tolda, golpha nas verédas.
É tudo em pouco um mar de labaredas!
Soprando sobre a ardente cataracta,
Rijo aquilão o estrago faz mais breve,
E o hynverno boreal, veloz, desata
Dos rócheos hombros o lençol de neve.
Triumpha a morte; o horror o horror dilata;
O espirito a medil-o mal se atreve.
Que dôr! Que fim! Que circulo medonho!...
Tal foi o despertar qual fôra o sonho!
Inspira patrio amor delirio intenso.
Do rude Scytha a barbara energia
Faz do seu Capitolio um facho immenso,
(Funerea tocha em lugubre agonia!)
E brada ao vencedor tôrvo e suspenso:
—«Hospede vens: meu braço te allumia!»
Pressagio triste ao grande temerario!
O incendio, occaso! Os gellos, um sudario!
D'esse lume ao revérbero inimigo
Vê-se, na encosta qu'inda o sangue innunda,
Descendo, só, quem só contou comsigo;
E no extremo fatal (licção profunda!)
Como o padrão do Prometheu antigo,
Um rochedo surgir, que o mar circumda—
O mar, espelho azul da immensidade,
Cantico eterno á eterna liberdade!

VENDE-SE NOS-SEGUINTES LOCAES

Escriptorio da Typographia da Gazeta de Portugal, travessa da Parreirinha, 26, 1.º andar.

Livraria de Silva, praça de D. Pedro, 22 a 25.

Livraria de Pereira, rua Augusta, 50 e 52.

Liyraria de Lavado, rua Augusta, 29 e 31.

Preço 100 réis.