Ahi verá!

BOCAGE

Tem-m'o repetido a meudo a consciencia.

Oh! não mais que momentos inebria
O sordido clamor da turba sordida!…

Perdoe, involuntariamente se me formulou em, verso a idéa.

GONÇALO

Prodigiosa faculdade! E quer desbaratal-a?

BOCAGE (proseguindo)

Não pense que estimo a plebe das admirações… tanto como admiro as magras rimas de ôccos versejadores!… No meio das mais estimulantes palestras, quando é maior o alarido e a matinada, quando egualmente espumam os copos e os labios, quando se condensa o vapor que tolda a casa e o cérebro, quando os motejos se crusam como settas, e os paradoxos refervem como vagas, que de vezes não fico eu mudo, absorto, sem escutar, sem perceber, sem discernir o que tenho diante!… É que se me desprende a alma para cima!… Tenho os olhos e o espirito nos espaços radiantes, d'onde se encara o infinito e o futuro!… Ouço o hymno triumphal na bocca dos povos reconhecidos!… Enfeixo nos braços as palmas das nações!… Cinjo na fronte os louros perpetuos!… Vejo as edades curvadas aos pés d'um monumento coroado de perennes resplendores!… Esta e só esta é a gloria, digo… esta e só esta… eterna primavera, eterna aurora… eterna recompensa!

GONÇALO (enthusiasmado)