E quem tal sabe conceber não ha de saber realisal-o!
BOCAGE (tristemente, estendendo-lhe a mão)
Dê-me que o mundo se povoe de juizos como o seu, de almas como a sua… e será possivel, e será facil… Como elle é, não sei se algum dia terei força para tanto… Por ora, não… Resgate a minha franqueza a minha fragilidade… O menor abalo que d'esse extasi me atire á realidade, mal acerto com a vista na nullidade soberba, na villeza prospera, na abjecção remunerada, na astucia triumphante, na hypocrisia omnipotente… n'esse ascoroso acervo das miserias humanas… todo se me revolve o coração… e sae-me pela bocca em strophes irritadas, que a amargura envenena, que a indignação inflamma! Quero, e não posso, conter esta furia, represar esta onda, que se entumece, e trasborda com o temporal de dentro!… Depois… Nenhuma fraqueza lhe dissimulo… Depois, as palmas, os bravos, as acclamações, o frémito das turbas, que pendem da minha voz e a minha voz avassalla, todo este rumor contagioso e irresistivel… é novo excitante á febre, é maior alimento ao incendio, que lavra, que lavra, que se desata em labaredas accumulando as cinzas… que investe ao acaso… que devora quanto encontra… que hade acabar por me devorar tambem!
GONÇALO
Veia exuberante! Seiva excessiva! Torrente impetuosa!—Os annos o corrigirão.
BOCAGE
Não sei… Nasci assim. Acho-me assim ao entrar no mundo. Corrige-se isto?
GONÇALO
Quando se não corrige, mata. E o sr. Bocage ha de viver.—Desculpe se o turbei nas suas contemplações… Não pude resistir… posto saber o fito d'ellas.
BOCAGE (sorrindo)